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Violência contra a mulher

Penélope e as vozes femininas que a história tentou silenciar

Revisitar Penélope à luz de sua própria experiência é reconhecer que a violência contra a mulher não é um desvio moderno, mas uma herança antiga, sustentada por silêncios convenientes

Publicado em 08 de Janeiro de 2026 às 04:15

Públicado em 

08 jan 2026 às 04:15
Ethel Maciel

Colunista

Ethel Maciel

ethel.maciel@gmail.com

No Natal, fiz um convite a refletir comigo sobre como o propósito na obra de Viktor Frankl podia nos ajudar na busca do nosso próprio sentido na vida. Neste início de ano em que, tradicionalmente, nos preparamos para mudanças, resoluções e novas metas, quero te convidar a refletir sobre como podemos, como sociedade, mudar as terríveis estatísticas da violência contra a mulher.
Em 2024, o Brasil atingiu um triste recorde ao registrar 1.492 feminicídios, o maior número desde que essa tipificação criminal foi criada em 2015. Já em 2025, até dezembro, o país contabilizava mais de mil feminicídios confirmados e aproximadamente 2,7 mil tentativas, evidenciando a persistência e gravidade do problema. Além disso, pesquisas recentes apontam que cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar apenas em 2025,
O dado mais impactante é que 64% desses crimes ocorrem dentro da própria casa da vítima, espaço que deveria ser de segurança e acolhimento. Em mais de 80% dos casos, o agressor é um companheiro ou ex-companheiro, reforçando o ciclo de violência doméstica e a dificuldade de proteção das mulheres dentro de suas relações afetivas.
Violência contra a mulher, feminicídio
Violência contra a mulher, feminicídio Crédito: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Você pode pensar que são casos isolados, mas esses números reforçam a ideia de uma violência estrutural e social, que se perpertua pelo silenciamento de pessoas que estão próximas à vítima. Em sua família, em seu trabalho ou em sua relação de amizade.
Há, portanto, um silenciamento estrutural, histórico, que perpassa várias culturas. Faço o convite a uma reflexão a partir de uma personagem literária bastante conhecida: Penélope. Retratada em um dos livros mais aclamados: a Odisseia, escrita pelo poeta grego Homero por volta do século VIII a.C., mas também por um segundo livro que me marcou muito da escritora canadense Margaret Atwood: "A Odisseia de Penélope".
Na Odisseia, de Homero, Penélope é celebrada como a esposa fiel que espera, em silêncio e astúcia, o retorno de Ulisses. Durante anos, sua casa é invadida por pretendentes violentos, seu corpo é tratado como moeda de troca e sua vontade é constantemente ameaçada. Ainda assim, a narrativa épica tradicional pouco se interessa por sua subjetividade. Penélope existe mais como símbolo do que como voz. A obra narra o longo retorno de Ulisses após a Guerra de Troia que nesse período vive muitas aventuras, inclusive românticas antes de retornar para sua esposa, Penélope.
É justamente esse silêncio que atravessa a obra que fez a escritora Margaret Atwood romper em “A Odisseia de Penélope”. Ela revisita o mito a partir de uma perspectiva feminina, permitindo que Penélope conte sua própria história não como ideal de virtude, mas como mulher cercada por medo, suspeita e violência estrutural.
Ao dar-lhe voz, Atwood revela aquilo que os séculos esconderam: a espera não foi romântica, foi uma estratégia de sobrevivência. Penélope não era apenas paciente; era vigilante, acuada, obrigada a usar a inteligência para evitar um destino imposto pelos homens ao seu redor.
Essa releitura dialoga diretamente com a realidade da violência contra a mulher. Assim como Penélope, muitas mulheres vivem sob constante ameaça dentro do próprio lar, espaço que deveria ser de proteção. A pressão social para “aguentar”, “esperar” e “manter a família” atravessa gerações. A fidelidade e o silêncio, exaltados no mito antigo, revelam-se, sob o olhar contemporâneo, instrumentos de controle.
A narrativa de Penélope é inequívoca: quem conta a história detém o poder. Durante séculos, a experiência feminina foi narrada por vozes masculinas, que normalizaram abusos e transformaram sobrevivência em virtude moral. Ao recontar o mito, Atwood questiona essa tradição e nos convida a escutar aquilo que foi calado.
Revisitar Penélope à luz de sua própria experiência é reconhecer que a violência contra a mulher não é um desvio moderno, mas uma herança antiga, sustentada por silêncios convenientes. É compreender que dar voz às mulheres nos livros, na justiça, na sociedade não é um favor, mas uma reparação histórica.
Tenho que fazer uma pausa para reconhecer que avançamos. A Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006) completou 19 anos em 2025 e segue como o principal instrumento legal de proteção à mulher no Brasil. Apesar dos avanços proporcionados pela lei, o descumprimento de medidas protetivas ainda é um desafio significativo, comprometendo a efetividade da proteção oferecida pelo Estado.
O fato de nomearmos essa violência, o feminicídio, é marco de avanço. A Lei nº 13.104/2015 trouxe esse crime à luz do Código Penal e, dez anos depois, a Lei 14.994/2024 foi além: fez do feminicídio uma categoria autônoma, com pena máxima elevada a 40 anos. Esse endurecimento jurídico revela, finalmente, o peso e a urgência de se punir com rigor quem tira a vidas de mulheres.
Ainda há um enorme caminho a percorrer para termos uma sociedade mais justa, onde mulheres não precisem temer sair à noite, temer a companhia de homens e vivenciar violência dentro de suas próprias casas. Mas um caminho já foi percorrido, e ainda que estejamos no meio de uma longa estrada, já sabemos que a educação é o melhor remédio para essa terrível chaga chamada violência.
Que 2026 chegue nos trazendo a certeza de que precisamos lutar contra toda forma de violência e, principalmente, que para termos uma sociedade mais justa, o esforço precisa ser coletivo e a igualdade de direitos precisa ser nossa meta. É urgente educar as crianças, educar os homens, educar as mulheres e, se mesmo assim presenciar violência contra mulher, denuncie, ligue 180. O silêncio mata!
É preciso reconhecer que, enquanto as Penélopes de hoje ainda precisarem tecer estratégias para sobreviver à violência e ao apagamento, a odisseia feminina continuará. Mas, quando suas vozes passam a ocupar finalmente o centro da narrativa, o mito se transforma e a história também pode mudar.
Somos muitas Penélopes no mundo: filhas, mães, irmãs. Nossas vidas merecem ser vividas com o máximo de sua plenitude. Não ao redor das vidas masculinas, apagadas e delimitas em um canto da casa, mas vivas, pujantes e livres para sermos quem somos.
Há que se entender que para ter Ulisses é preciso existir Penélope e vice-versa. Há dois protagonistas que devem coexistir em uma vida de amor mútuo. E quando esse amor não for suficiente, é preciso haver respeito para que as individualidades possam existir em outras histórias.

Ethel Maciel

É enfermeira. Doutora em Epidemiologia (UERJ). Pós-doutora em Epidemiologia (Johns Hopkins University). Professora Titular da Ufes. Aborda nesta coluna a relação entre saúde, ciência e contemporaneidade

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