Esta semana, ao participar como keynote speaker do evento “Integrity and Business: A Global Agenda for Trust and Cooperation”, promovido pelo ICC Brasil — capítulo nacional da International Chamber of Commerce — e pela Rede Brasil do Pacto Global da ONU, como parte da programação paralela do Fórum Global de Integridade e Combate à Corrupção da OCDE 2026, em Paris, tive a oportunidade de apresentar uma reflexão que, cada vez mais, se impõe como realidade no ambiente de negócios: integridade deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar o centro da agenda econômica global.
Os números ajudam a explicar o por quê. A corrupção custa à economia mundial cerca de US$ 3,6 trilhões por ano, o equivalente a aproximadamente 5% do PIB global . Ao mesmo tempo, em 2023, fluxos financeiros ilícitos, da ordem de cerca de US$ 3,1 trilhões, transitaram pelo sistema financeiro internacional.
Nos países em desenvolvimento, como o Brasil, o impacto é ainda mais severo: estima-se que US$ 1,26 trilhão seja perdido anualmente em decorrência da corrupção. Não se trata apenas de números expressivos — trata-se de recursos que deixam de ser investidos em crescimento, inovação e políticas sociais.
Mas há um aspecto ainda mais relevante para o setor privado: o crime organizado já não opera à margem da economia formal — ele está inserido nela. Estimativas indicam que atividades como lavagem de dinheiro e crime transnacional representem entre 2% e 5% do PIB global.
Esses recursos têm circulado livremente por estruturas societárias que, à primeira vista, parecem legítimas. Setores como construção, logística, mercado imobiliário, varejo e plataformas digitais estão entre os mais expostos. Nesse contexto, a pergunta que se coloca para as empresas não é mais se o risco existe, mas onde ele está presente dentro de suas operações.
Durante o debate, defendi que ainda persiste um equívoco recorrente: tratar integridade como custo ou obrigação regulatória. A evidência empírica aponta exatamente na direção oposta. Empresas reconhecidas por altos padrões éticos apresentam desempenho superior ao restante do mercado — cerca de 7,8% acima em um horizonte de cinco anos — e, no longo prazo, chegam a superar seus pares em até 366%.
Além disso, organizações com programas robustos de compliance enfrentam aproximadamente 40% menos ações de enforcement. Em outras palavras, integridade não apenas mitiga riscos — ela cria valor, fortalece reputação, atrai investimentos e amplia a resiliência em cenários de incerteza.
O poder público tem sua responsabilidade constitucional: prevenir, investigar e combater o crime organizado e a corrupção. Mas essa agenda não se esgota na esfera estatal. A iniciativa privada precisa reconhecer que também está no centro desse desafio — não como espectadora, mas como parte integrante do sistema econômico onde esses riscos fatalmente se materializam.
Conhecer esses riscos e agir de forma consistente para mitigá-los é essencial para evitar que estruturas empresariais sejam utilizadas como canais para movimentação e lavagem de recursos ilícitos.
Nesse contexto, a integridade precisa ser compreendida em sua dimensão mais ampla. Ela é, sem dúvida, um princípio ético fundamental — mas é também um ativo estratégico. Empresas que incorporam a integridade às suas decisões não apenas reduzem riscos: elas constroem valor, fortalecem sua posição competitiva e aumentam sua capacidade de navegar em cenários de incerteza.
No fim, para quem compreende a dinâmica atual dos mercados, integridade deixa de ser uma opção e se afirma como imperativo estratégico. Mais do que um valor, tornou-se condição para operar de forma sustentável. A questão já não é o custo de agir corretamente, mas o risco — crescente e muitas vezes irreversível — de não optar pela integridade.