Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Crônica

40 anos das Diretas Já e da minha carreira de escritor

O povo compareceu em peso. Embalados pela musa do movimento, Fafá de Belém, que nos ensinou a cantar o Hino Nacional de coração aberto, ao ritmo do sentimento, sem fardas e continências

Publicado em 25 de Março de 2024 às 01:40

Públicado em 

25 mar 2024 às 01:40
Francisco Aurelio Ribeiro

Colunista

Francisco Aurelio Ribeiro

faribe@gmail.com

Era 1984. O último governo da ditadura militar agonizava, governado por um general estúpido, que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao das pessoas, após vinte anos de arbítrio, autoritarismo e cassação das liberdades. O Brasil todo se agitava num dos maiores movimentos cívicos de todas as épocas, o das “Diretas Já!”.
As esquerdas se uniram e Lula, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique, Teotônio Vilela — o menestrel das Alagoas — e muitos outros líderes dos poucos partidos existentes se uniram, convocando a população para se manifestar em favor de eleições livres, diretas e democráticas.
E o povo compareceu em peso. Embalados pela musa do movimento, Fafá de Belém, que nos ensinou a cantar o Hino Nacional de coração aberto, ao ritmo do sentimento, sem fardas e continências. Fafá se vestia de verde e amarelo, abria o vozeirão e o povo ia atrás, com lágrimas escorrendo. Era preciso retomar o país para o povo e mandar os militares de volta para o seu lugar, os quartéis. E assim deve ser sempre: quem quiser ser político, que largue a farda e vá pra rua pedir votos.
Comício das Diretas Já na Praça da Sé, em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1984
Comício das Diretas Já na Praça da Sé, em São Paulo, no dia 25 de janeiro de 1984 Crédito: Agência Brasil
Foi num dia festivo de showmício desses, em Belo Horizonte, quando iniciava meu mestrado em Letras na UFMG, que saltei do ônibus vindo das aulas, o mais próximo possível da rodoviária, e a ela me dirigi, de mochila às costas e alma leve, para tomar o ônibus para Vitória.
Foi difícil chegar, pois a multidão ia da Praça Sete à rodoviária, ouvindo os líderes políticos e gritando loas à democracia. Era bonito de ver e de ouvir! Só quem viveu os horrores da ditadura e da repressão sabe o quanto é bom viver na democracia, apesar de todos os seus defeitos.
Afinal, já dissera Churchill, em discurso na Câmara dos Comuns, em 1947: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.
A muito custo, cheguei à rodoviária de BH, faltavam algumas horas para o ônibus sair e resolvi fazer um lanche: "Um pastel e um chope", pedi. Ao meu lado, estava um senhor, pouco mais velho que eu, que me perguntou: "Você é escritor?" Levei um susto e respondi, prontamente: "Não, sou professor". Ele retrucou: "Posso ver sua mão?" Brincando, respondi: "Você é cigana?" Ele respondeu, sério: "Não, sou físico, mas pratico a quiromancia".
Ao ouvir a resposta, estiquei-lhe a mão esquerda. Ele solicitou: "A direita, por favor". Ele a perscrutou e começou a dizer algumas coisas sobre o meu passado, todas corretas, creio que para eu comprovar que ele sabia o que estava dizendo. Em seguida, me disse: "Vejo muitos livros em sua mão, muitos escritos por você e muitos que você ajudará outros escritores a escrever". Respondi: "Em minhas mãos, sempre passaram muitos livros, Amo ler e sou professor de literatura, além de estudante do Mestrado em Letras".
E ele: "Não é desses livros que falo. Vejo aqui muitos que você escreverá. E o primeiro será em breve. Você escreveu algum, recentemente?"
"Não", respondi, pois nem me lembrava de que, há alguns dias, deixara com a minha orientadora, a professora Antonieta Cunha, que também era uma das donas da Editora Miguilim, uma das principais editoras daquela época a publicar livros para crianças, dois textos escritos por mim e ilustrados por Paulo Roberto Sodré, na época, meu aluno na Ufes. Despedimo-nos, ele se foi para Itajubá, onde morava, e eu para Vitória. Nem sequer lhe perguntei o nome. E nem dei muita importância ao fato.
Dias depois, recebi a notícia de que a Editora Miguilim iria publicar meus dois livros: "Era uma vez uma chave" saiu em 1984 e "Leve como a folha", em 1985. Ambos tiveram grande aceitação pelas crianças, o que me animou a enviar outros originais para diferentes editoras do Rio, São Paulo e Belo Horizonte, até que por aqui surgissem boas editoras.
De lá para cá, publiquei uns sessenta livros, sendo a metade para crianças. E fui editor, revisor e organizador de muitos outros. O físico-quiromante de Itajubá estava certo, mas continuo achando que sou mais leitor, pois, como Borges, “me orgulham mais os livros que li do que os que escrevi”.

Francisco Aurelio Ribeiro

É doutor em Letras, professor e escritor. Seus textos tratam de literatura, grandes nomes do Espírito Santo e atualidades.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Fernando Tatagiba
Parte 2: para o aniversário de morte de Fernando Tatagiba
Presídio
Quanto custa manter cada preso do sistema carcerário do ES
Imagem de destaque
Livro conta a história dos bairros de Vila Velha desde o século XVI

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados