Era 1984. O último governo da ditadura militar agonizava, governado por um general estúpido, que dizia preferir o cheiro dos cavalos ao das pessoas, após vinte anos de arbítrio, autoritarismo e cassação das liberdades. O Brasil todo se agitava num dos maiores movimentos cívicos de todas as épocas, o das “Diretas Já!”.
As esquerdas se uniram e Lula, Ulysses Guimarães, Fernando Henrique, Teotônio Vilela — o menestrel das Alagoas — e muitos outros líderes dos poucos partidos existentes se uniram, convocando a população para se manifestar em favor de eleições livres, diretas e democráticas.
E o povo compareceu em peso. Embalados pela musa do movimento, Fafá de Belém, que nos ensinou a cantar o Hino Nacional de coração aberto, ao ritmo do sentimento, sem fardas e continências. Fafá se vestia de verde e amarelo, abria o vozeirão e o povo ia atrás, com lágrimas escorrendo. Era preciso retomar o país para o povo e mandar os militares de volta para o seu lugar, os quartéis. E assim deve ser sempre: quem quiser ser político, que largue a farda e vá pra rua pedir votos.
Foi num dia festivo de showmício desses, em Belo Horizonte, quando iniciava meu mestrado em Letras na UFMG, que saltei do ônibus vindo das aulas, o mais próximo possível da rodoviária, e a ela me dirigi, de mochila às costas e alma leve, para tomar o ônibus para Vitória.
Foi difícil chegar, pois a multidão ia da Praça Sete à rodoviária, ouvindo os líderes políticos e gritando loas à democracia. Era bonito de ver e de ouvir! Só quem viveu os horrores da ditadura e da repressão sabe o quanto é bom viver na democracia, apesar de todos os seus defeitos.
Afinal, já dissera Churchill, em discurso na Câmara dos Comuns, em 1947: “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”.
A muito custo, cheguei à rodoviária de BH, faltavam algumas horas para o ônibus sair e resolvi fazer um lanche: "Um pastel e um chope", pedi. Ao meu lado, estava um senhor, pouco mais velho que eu, que me perguntou: "Você é escritor?" Levei um susto e respondi, prontamente: "Não, sou professor". Ele retrucou: "Posso ver sua mão?" Brincando, respondi: "Você é cigana?" Ele respondeu, sério: "Não, sou físico, mas pratico a quiromancia".
Ao ouvir a resposta, estiquei-lhe a mão esquerda. Ele solicitou: "A direita, por favor". Ele a perscrutou e começou a dizer algumas coisas sobre o meu passado, todas corretas, creio que para eu comprovar que ele sabia o que estava dizendo. Em seguida, me disse: "Vejo muitos livros em sua mão, muitos escritos por você e muitos que você ajudará outros escritores a escrever". Respondi: "Em minhas mãos, sempre passaram muitos livros, Amo ler e sou professor de literatura, além de estudante do Mestrado em Letras".
E ele: "Não é desses livros que falo. Vejo aqui muitos que você escreverá. E o primeiro será em breve. Você escreveu algum, recentemente?"
"Não", respondi, pois nem me lembrava de que, há alguns dias, deixara com a minha orientadora, a professora Antonieta Cunha, que também era uma das donas da Editora Miguilim, uma das principais editoras daquela época a publicar livros para crianças, dois textos escritos por mim e ilustrados por Paulo Roberto Sodré, na época, meu aluno na Ufes. Despedimo-nos, ele se foi para Itajubá, onde morava, e eu para Vitória. Nem sequer lhe perguntei o nome. E nem dei muita importância ao fato.
Dias depois, recebi a notícia de que a Editora Miguilim iria publicar meus dois livros: "Era uma vez uma chave" saiu em 1984 e "Leve como a folha", em 1985. Ambos tiveram grande aceitação pelas crianças, o que me animou a enviar outros originais para diferentes editoras do Rio, São Paulo e Belo Horizonte, até que por aqui surgissem boas editoras.
De lá para cá, publiquei uns sessenta livros, sendo a metade para crianças. E fui editor, revisor e organizador de muitos outros. O físico-quiromante de Itajubá estava certo, mas continuo achando que sou mais leitor, pois, como Borges, “me orgulham mais os livros que li do que os que escrevi”.