Há meio século, leio os autores capixabas e escrevo sobre o que eles produzem. Por isso, tenho “lugar de fala” para afirmar que somos ilustres desconhecidos no cenário nacional e até por aqui mesmo. Recentemente, uma pesquisa feita na Universidade de Brasília divulgou um portal, o Praça Clóvis, com 230 resenhas críticas sobre romances de escritores de 25 estados brasileiros, mas ignorou, solenemente, os escritores capixabas.
Com um pouquinho mais de boa vontade, teriam encontrado os romances de Carlinhos Oliveira, Ormando Moraes, Reinaldo Santos Neves, Bernadette Lyra, Renato Pacheco, Luiz Guiherme Santos Neves, Virgínia Tamanini, Neida Lúcia Moraes, Margarida Pimentel e muitos outros publicados no período selecionado, algumas vezes por grandes editoras nacionais. E é uma pesquisa séria, envolvendo várias universidades!
Há 50 anos, quando concluía a graduação em Letras, meu trabalho final de conclusão de concurso, uma monografia, teve como tema o “realismo fantástico”, muito em voga naqueles tempos de ditaduras, uma válvula de escape, talvez, e o autor escolhido foi J.J. Veiga e a sua “Máquina Extraviada”. Na época, fiquei em dúvida entre ele e Murilo Rubião, o precursor do fantástico em Minas Gerais. Tive a honra e o prazer de estabelecer contato com os dois e de fazer amizade com o Veiga, o goiano-carioca mais gente boa que já conheci.
Desconhecia qualquer produção literária dessa espécie no Espírito Santo ou feita por capixabas. Só agora descobri que o criador do realismo fantástico no Brasil foi o capixabíssimo Adelpho Poli Monjardim (1900-2000), o filho do barão, que publicou contos e novelas desse gênero, desde a década de 1940, com divulgação nacional.
Adelpho publicava no Rio, então capital do Brasil, em grandes editoras nacionais, como A Noite, e sua obras circulavam pelo país todo. “O Tesouro da Ilha da Trindade”, “A Torre do Silêncio” e “Novelas Sombrias”, seus primeiros livros, tiveram muitos leitores. Depois, Adelpho entrou na política, virou prefeito de Vitória, o primeiro eleito, deputado, e publicava, esporadicamente, por aqui ou por editoras menores, sem alcance nacional.
Em sua longa vida quase centenária, deixou uma dezena de obras parcialmente conhecida por seus pares do Instituto Histórico e Geográfico do ES e da Academia Espírito-santense de Letras. Nunca teve a sua obra literária precursora do fantástico no Brasil analisada por estudante ou professor de Letras até agora. Espero preencher essa lacuna com o livro sobre ele a ser lançado em julho, no aniversário da Biblioteca Municipal Adelpho Poli Monjardim.
A literatura produzida no Espírito Santo é diversificada e reflete as múltiplas tendências e variações culturais que nos constituem, esse pequeno estado brasileiro, um caldeirão étnico-racial. Todos os gêneros e modalidades literários são aqui produzidos. Só neste primeiro semestre, li os contos antológicos de Bernadette Lyra em “A morte do ornitorrinco branco” e os de Anaximandro Amorim; a poesia de Jorge Elias, de Matusalém Dias de Moura e o excelente “Memorandos para a Tribo”, de Fernando Achiamé, poeta-historiador.
Li o romance de Getúlio Neves, cujo cenário é a Vila de Itaúnas, recentemente escolhida como palco para a “Festa da Palavra”, e o premiado “Ai de ti, Camburi”, de Andreia Delmaschio. Aguardo, ansioso, pelo novo romance de Pedro J. Nunes, um dos melhores prosadores capixabas, a ser lançado no dia 24 deste mês. Enfim, só se conhece o que se ama, dizia Santo Agostinho, e isso se aplica, também, à nossa literatura e aos seus escritores. Se não os lemos, como os conhecer para amar ou não?