Lacy Fernandes Ribeiro (1948-2013) e Sérgio Luiz Blank (1964-2020) eram escritores, amigos e pertenceram à mais importante geração de escritores capixabas, “a de 80”, quando uma gama de escritores amadurecida e calada durante a ditadura civil-militar, que massacrou a cultura brasileira de 1964 a 1985, com o ódio e a perseguição a artistas e a intelectuais, passou a publicar seus escritos.
Conheci os dois quando iniciavam suas carreiras literárias e pude acompanhar-lhes os passos, desde a primeira publicação até a última. Lacy, nascida em Barra de São Francisco, veio para Vitória em 1964, como tantos capixabas que saíram do interior para a Capital, em busca de seus sonhos. Chegou a Vitória quando Sérgio nascia, em Cariacica, e a ditadura chegava em nome de “Deus, Pátria, Família e Liberdade”, um longo pesadelo de 21 anos, que alguns saudosos da tirania querem exumar.
Lacy formou-se em Direito pela Ufes, numa geração de intelectuais que infernizava a ditadura com passeatas, manifestações artísticas e seus escritos. A censura corria solta e, nesse cenário, Amylton de Almeida (1946-1995) tornou-se um porta-voz dos artistas, sendo grande amigo de Lacy que iniciava a batalha de escrever e publicar.
Grande leitora, publicou sua primeira crônica, "Uma criança pobre", em 1965, no jornal da Igreja Presbiteriana de Vitória. Depois disso, ficou 17 anos sem publicar nenhum de seus escritos, lançando, em 1982, seu primeiro livro, "Primeiros passos", um volume de poesias (seu único trabalho no gênero). O lançamento foi no Teatro Carlos Gomes, com pompa e circunstância, e o livro, de capa dura, branco e de formato pequeno, não decepcionou seus leitores.
Como a maioria dos escritores, Lacy começou na poesia e esse seu primeiro livro já revelava uma escritora amadurecida, com uma grande preocupação social, como o poema dedicado ao amigo Perly Cipriano, preso político pela ditadura. A partir daí, a escritora de quem se disse “maldita, bendita, iluminada, querida por todos e mal entendida por alguns”, consagrou-se como uma das mais importantes escritoras capixabas de sua época, ao lado de Luiz Fernando Tatagiba, Amylton de Almeida, Sérgio Blank e Waldo Mota.
Na década de 80, a Ufes destacava-se com a principal produtora de escritores capixabas. Com uma gráfica nova, o papel cedido pela Aracruz Celulose e um editor erudito, Reinaldo Santos Neves, criou a editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida, que funcionou a pleno vapor, de 1979 a 1989 e, precariamente, de 1990 a 1995. A crise provocada pelo desgoverno Collor pôs uma pá de cal na editora que tão bem cumpriu seu papel naquele período de obscurantismo e após.
No entanto, fora da Ufes, alguns escritores capixabas também publicavam, geralmente em editoras do Rio de Janeiro, e São Paulo como Neida Lúcia Moraes, Margarida Pimentel, Amylton de Almeida e Lacy Ribeiro. Essa publicou dois volumes de contos/crônicas, que se tornaram clássicos, os "Contos de Réis", em 1986, e o "Avenida República": diário na madrugada, em 1987. Seu último livro foi o romance confessional "Paixão de cárcere: romance proibido", publicado em 2009. Lacy Ribeiro faleceu em 2013, assassinada com 13 facadas, crime considerado, à época, de latrocínio. Em 2024, o Dr. Barreto publicou "Quem matou Lacy Ribeiro", provando que o crime foi de feminicídio.
Sérgio Blank, amigo dileto de Lacy, publicou seu primeiro livro em 1984, "Estilo de ser assim tampouco", pela Ufes. Reinaldo me deu o livro e me falou de um novo escritor que surgia. Li e me encantei com o jovem escritor. Sabia que ali se iniciava um ourives da palavra. E acompanhei toda a sua trajetória vitoriosa de escritor, assassinado em 2020, aos 56 anos, estrangulado, por homofobia, mais uma vítima da sociedade violenta e injusta em que vivemos. Sérgio e Lacy não podem ser esquecidos e suas obras precisam ser lidas pelas novas gerações.