O Espírito Santo tem conseguido uma grande redução nas taxas de homicídio. Sempre há o risco de algum retrocesso e devemos estar vigilantes. Contudo, o cenário mais provável é o de que em breve possamos enfrentar outras tragédias cotidianas, e o primeiro passo é eleger uma prioridade, pois dispersar esforços em várias direções é certeza de não chegar a lugar nenhum. Aliás, essa fidelidade à prioridade eleita é o que assegurou o sucesso até agora.
As drogas talvez sejam o maior flagelo da humanidade, mas não existe nenhuma estratégia que tenha se mostrado minimamente eficaz. Não existe consenso nem mesmo quanto à criminalização ou descriminalização, e a única unanimidade é que estamos perdendo de goleada. Portanto, por ora, o sábio é experimentar alternativas promissoras, até que uma delas se revele merecedora de aplicação em larga escala.
A outra modalidade de crime que atormenta e traumatiza a população são os crimes contra o patrimônio utilizando violência contra a vítima. O momento é excelente, pois a nova legislação, embora ainda leniente contra o porte ilegal de armas de fogo, que é o grande instrumento de atuação preventiva pela PM, aumentou muito as penas em certos casos mais graves de roubo. Isso significa que a PM e especialmente a PC passam a ter um “porrete jurídico” bem mais pesado.
É bem verdade que a PM já faz um trabalho incessante no atendimento imediato às ocorrências, e é difícil melhorar o que já está bom. Contudo – entendam isso como uma crítica amiga – o trabalho investigativo dos crimes patrimoniais ainda é pífio, principalmente por falta de efetivo. Não precisa muito, ao menos para começar: somente um pequeno reforço na Delegacia Patrimonial elevaria substancialmente o número de casos apurados.
O tráfico já mostrou que não se ressente com as prisões, mas os crimes patrimoniais, principalmente de certas espécies, como o roubo de cargas e o de automóveis, obedecem ao Princípio de Pareto: 80% deles são praticados por 20% dos criminosos. E não há substituição dos que são neutralizados. Ou seja, não é preciso apurar tudo, prender todo mundo, superlotar ainda mais as prisões, para ter resultados significativos.
Sem promessas milagrosas, sem passe de mágica, essa parece a opção mais racional: embora mantendo na essência o trabalho contra os homicídios, criar o embrião de uma política de longo prazo igualmente bem-sucedida contra o roubo e não apenas contra o latrocínio, para a população voltar a sair tranquila às ruas.