Para que não vinculassem às eleições, deixei passar ao menos o primeiro turno para falar da proibição das bets. Como já andei falando aqui, sempre foram organizações criminosas que bancaram qualquer tipo de jogo ou aposta, mesmo onde são legalizadas.
Em primeiro lugar, porque são elas que dominam o conhecimento necessário, têm a tecnologia, conhecem a psicologia dos seus clientes etc. Em segundo, porque sempre existe a possibilidade das mais variadas fraudes trapaças por parte dos apostadores, de maneira que apenas criminosos arranjam um “jeitinho mais eficiente e rápido” de lidar com isso. E, por fim, apenas criminosos conseguem fazer lobby pela legalização...
Tem ultraliberais que defendem o que estávamos fazendo: legaliza, tributa pesadamente e cada um que cuide de sua própria saúde mental, trate seus vícios, resolva seu superendividamento etc.
De forma coerente, sustentam que se deve fazer o mesmo com as drogas. Era o mesmo raciocínio que impedia o governo de combater o tabagismo: é nossa maior fonte de arrecadação. Não vou dar minha opinião sobre essas pessoas porque o veículo proíbe linguagem capacitista...
Nunca afirmei que a repressão policial é eficiente contra as drogas, a prostituição, o jogo e outros crimes “sem vítima”, mas há uma grande distância entre combater por um mecanismo ou por outro, não combater de forma alguma e, no outro extremo, fazer de algo nocivo às pessoas uma simples forma de obter verbas que, no final, acabam sendo insuficientes para compensar o estrago feito na sociedade.
Já registrei nesta coluna que o álcool, sozinho, representa muito mais problemas públicos tanto de saúde como de segurança do que as substâncias psicoativas ilícitas. Agora arrisco lançar uma hipótese: as bets e o superendividamento estão fazendo mais estragos na saúde mental e na vida social do cidadão que o álcool somado às drogas ilícitas.
Não temos estatísticas sobre isso, até porque o superendividamento não é categorizado como doença mental (apenas a ludopatia, o vício em jogo), as bets não estavam criminalizadas etc. Contudo, o número de atendimentos psicossociais por cada categoria sugere essa hipótese que lancei.
Vamos tomar cuidado, porque os responsáveis só registram quem foi procurar ajuda, e não sabemos quantos sofrem em silêncio, quantos tiram a própria vida sem explicação, por exemplo. Lancei uma hipótese muito provável, não fiz uma afirmativa categórica.
Então, se essa medida foi tomada com intuitos eleitoreiros é outro problema. Já foi tarde. Na verdade, um governante honesto e sensato jamais teria aprovado essa legalização, nem se omitido diante do problema gigantesco e absolutamente previsível que ela implicava, tanto social como psiquiátrico. Quando a burrice é muita, o professor desconfia.