Enquanto todos corremos atrás de álcool gel, aprendemos a nos cumprimentar com os cotovelos e inventamos maneiras de distrair as crianças, naquelas que prometem ser as mais infernais “férias” de todos os tempos, muita gente se esquece de como as medidas de prevenção à pandemia da Covid-19 refletem em outros setores, inclusive do serviço público, como, por exemplo, a atividade policial.
Com as pessoas recolhidas em suas casas, os roubos a transeuntes podem diminuir ao mesmo tempo que aumentam os arrombamentos, por exemplo. Áreas e horários que antes preocupavam por estarem sempre fervilhantes ficarão desertos. As ocorrências e a demanda de patrulhamento ostensivo, portanto, são alteradas de uma maneira que não tem registro recente, de modo que seu redimensionamento e redirecionamento exigirá grande capacidade de antecipação, observação e ajuste, até que se atinja uma nova “normalidade”, ou seja, até que se estabilize um novo arranjo das relações sociais e das atividades da população e ele seja compreendido e atendido.
Além disso, temos sempre os pescadores de águas turvas, aqueles que aproveitam momentos caóticos ou trágicos para colocarem a cabeça de fora. Golpes cibernéticos, fake news, manipulação de mercados e especulação com itens de primeira necessidade tendem a aumentar, como também podem surgir saques e agressões imprevisíveis, ainda mais se houver algum pânico ou “efeito manada”. Cumpre impedir essas ações não apenas por meio de policiamento preventivo, mas também de investigação ágil.
Os dias que seguirão exigirão esforço redobrado não apenas dos profissionais da saúde, mas também dos operadores da segurança pública. Em alguns Estados onde a situação se mostrou mais crítica, governadores suspenderam as férias e folgas tanto do pessoal médico como de policiais, pois manter a ordem em períodos excepcionais é sempre um particular desafio para as autoridades.
Como não bastasse, aumenta a necessidade de integração entre serviços públicos distintos. Se em tempos normais já é necessária sintonia entre áreas e esferas governamentais diferentes, isso se torna crucial em momentos nos quais pacientes diagnosticados resolvem desrespeitar quarentenas, idosos ficam isolados de seus familiares e quem precisa continuar trabalhando não tem com quem deixar os filhos. O desafio para os governantes é muito maior do que tendemos a imaginar, há muito trabalho, e trabalho muito difícil pela frente.