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Cidades

E se tratássemos a população de rua como uma questão de saúde pública?

Se faremos ou não internações, voluntárias ou compulsórias, se já dispomos de terapias eficazes, tudo isso é outra discussão

Publicado em 27 de Abril de 2025 às 03:00

Públicado em 

27 abr 2025 às 03:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Para solucionar um problema renitente, o primeiro passo é revisar tudo o que não funcionou até agora e entender o porquê. Na verdade, se pensarmos um pouco, veremos que esse nosso fracasso em lidar com as pessoas em situação de rua era para lá de previsível.
Claro que não poderia dar certo pedir à polícia que faça esse trabalho, que é a primeira coisa que vem à cabeça de quase todo mundo. Acontece que dormir na praça não é crime, como tampouco o simples consumo de substâncias ilícitas. A polícia só tem como atuar contra uma minoria que comete crimes, mas a realidade é que a mesmo estes nem ficariam muito tempo presos.
E tem uma questão que vai se repetir o tempo inteiro: mesmo que alterássemos nossas leis e resolvêssemos encarcerar todo mundo, seria necessário criar 150 mil vagas no nosso já superlotado e muito caro sistema penitenciário, com uma despesa extra maior que os furtos evitados. Tudo o que a polícia conseguiria fazer, mas é ilegal, é ficar transferindo o problema de um ponto para o outro da cidade.
Outra ideia que passa pela cabeça de muita gente é uma internação compulsória, ao menos dos dependentes químicos. Além da grita do pessoal dos direitos humanos, parece que isso não seria muito eficaz como terapia, de maneira que o problema continuaria existindo, apenas confinado em manicômios, sem incomodar o resto da população. Mesmo assim, voltaríamos ao nosso problema administrativo e econômico: seria preciso criar 150 mil vagas de internação pelo SUS, algo ainda mais caro que aprisionar.
Aí a gente olha com esperança para a assistência social, só para descobrir que essas pessoas não querem ir para abrigos, o que esconde o fato de que também não temos 150 mil vagas para hospedar todo mundo, se elas aceitassem. Como eu já venho observando, esses 0,15% da população são aquelas pessoas das quais a assistência social não consegue dar conta, quase sempre por causa de seus problemas psiquiátricos. A única vantagem dessa opção é que criar todo esse espaço de acolhimento ao menos sairia muito mais barato do que prisões ou hospícios
Bem, eu disse que internação compulsória universal não seria uma solução provável, mas, sim, devemos compreender de uma vez que população de rua não é um caso de polícia ou puramente social, mas, majoritariamente, uma questão de saúde pública. Se faremos ou não internações, voluntárias ou compulsórias, se já dispomos de terapias eficazes, tudo isso é outra discussão, da qual apenas cientistas devem participar, mas essa é minha conclusão: pessoas morando na rua sofrem muito e, ao mesmo tempo, causam incômodo à vizinhança, além de alguns crimes.
Claro que precisamos tomar providências, mas estas devem ficar a cargo das secretarias municipais de saúde, mais especificamente da área de saúde mental. A assistência social, aqui, pode ser uma atriz coadjuvante muito útil, mas não tem meios de fazer o trabalho principal. Já a polícia, no máximo, seria uma figurante.
Dom Dario Campos faz celebração para os moradores de rua em Vitória
Moradores de rua em Vitória recebem refeição Crédito: Fernando Madeira/Arquivo
Sei também que, embora talvez não seja fácil nem barata, com certeza há solução, apesar de tudo, pelo simples fato da proporção. Mil cidadãos saudáveis e com casas para morar poderão prender, matar ou expulsar um único desajustado sempre que quiserem, da mesma forma como poderão acolher, cuidar e tratar. Por mais difícil que seja lidar com uma pessoa, na proporção de mil para uma, sempre haveremos de vencer.
Resumindo, ninguém deveria perder as esperanças, mas todas as vozes incomodadas com o acúmulo de dependentes químicos embaixo da sua janela deveriam se unir àquelas condoídas pelo sofrimento humano ali na praça para exigir que os serviços públicos de saúde assumam de vez a responsabilidade por esses pacientes “ocultos” e deem seus pulos. Não disse que a criança é bonita, mas toma que o filho é teu.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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