Em matéria estatísticas de segurança sabe-se ainda muito pouco. As duas únicas certezas é de que nenhum número pontual significa muito e que se deve desconfiar de variações muito acentuadas; o que importa são as tendências sustentáveis e, portanto, quanto maior a série histórica analisada, mais se pode extrair dos números. Em outras palavras, reduções ou aumentos pequenos, mas sistemáticos, são muito mais relevantes que pontos fora da curva.
Desde a paralisação da PM em 2017, interrompeu-se uma longa sucessão de reduções anuais na quantidade de homicídios, que pareciam pequenas isoladamente, mas que resultaram em uma queda total de quase 50% na violência letal. Houve oscilações, momentos em que a tendência parecia haver sido retomada, mas, três anos depois, realmente parece que será necessário um grande esforço para reverter os prolongados desdobramentos daquele movimento autofágico.
Atentas, as autoridades tomam providências, mas, como já apontamos aqui, esforços extraordinários não podem ser mantidos por longo prazo. Para que voltemos àquele caminho bem trilhado entre 2009 e 2016, será necessária uma estratégia que reconduza àqueles ganhos modestos, porém sucessivos, que se mantém ao longo dos anos, um passo de cada vez, em lugar de tentar “limpar” a cidade em 2 horas, como se a realidade fosse um filme do Batman.
Contudo, a dinâmica da violência é muito mutável, somente essas mesmas autoridades têm as informações atualizadas necessárias para enfrentar o momento atual, que dificilmente serão as mesmas de 2010. O importante é ter a consciência de que o operacional não substitui nem compensa o estratégico.
Algumas questões, contudo, são públicas e notórias: a crescente superlotação carcerária impõe uma escolha: ou se investem novamente centenas de milhões na construção de novos presídios e na contratação de policiais militares, ou se opta por trocar a quantidade pela qualidade das prisões efetuadas; para isso, não há outra saída senão sacrificar a ostensividade e o atendimento do Ciodes para aumentar o efetivo dedicado à inteligência e à investigação, ainda que isso seja impopular; rever procedimentos operacionais padrão e redirecionar as prioridades das instituições policiais e, principalmente, cuidar profundamente das feridas mal curadas da crise de 2017, o que não representa um desafio pequeno diante da recessão.
Apesar das muitas promessas dos prefeitos eleitos, não cabe aos municípios, que ficam com a fatia (muito) menor dos impostos, resolver mais essa questão, como se já não repousassem sobre seus ombros todo o atendimento à saúde e o ensino fundamental. A União tem se mostrado pouco disposta a aumentar sua atuação na Segurança Pública e, pelo visto, serão os Estados que deverão enfrentar a questão, ao mesmo tempo em que tentam se equilibrar sobre orçamentos cada vez mais apertados.
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