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Operações policiais

Matar o maior número possível de inimigos nem sempre leva à vitória final

É improdutivo e desmoralizador se ocupar do varejo e perder no atacado, vencer a guerra e perder a paz, enxugar gelo ou esvaziar o mar com uma peneira: as estratégias devem trazer resultados em quantidade compatível com a dimensão do seu desafio

Publicado em 23 de Maio de 2021 às 02:00

Públicado em 

23 mai 2021 às 02:00
Henrique Herkenhoff

Colunista

Henrique Herkenhoff

henriquegh@gmail.com

Guerra
Soldados norte-americanos escalam a “Colina 937”, apelidada “Hamburguer Hill”, em batalha de 1969 durante a Guerra do Vietnã Crédito: USAMHI/Wikimedia Commons
A guerra do Vietnã é considerada uma das mais acachapantes e humilhantes derrotas militares dos EUA, muito embora nela tenham morrido cerca de 1 milhão de vietcongs, contra 58 mil norte-americanos. Em 1974, os EUA se retiraram daquele país deixando seus aliados sul-vietnamitas à mercê dos inimigos.
Um episódio resume bem o que aconteceu. Entre 10 e 20 de maio de 1969, o exército americano insistiu em tomar de assalto a forte e tenazmente defendida “Colina 937”, apelidada “Hamburguer Hill” pelos soldados, que se sentiam literalmente em um moedor de carne. 630 vietcongs e 72 americanos/sul-vietnamitas morreram nessa batalha, mas a colina não tinha qualquer importância militar e foi abandonada logo depois de conquistada.
Em resumo, os americanos a atacaram teimosamente apenas porque o inimigo a defendia. Da maneira mais dolorosa, os EUA aprenderam que matar o maior número possível de inimigos não necessariamente leva à vitória final.
Além disso, mesmo aqueles que gostam da ideia de enfrentar a criminalidade “cancelando CPFs” deviam fazer contas. Estima-se que o Comando Vermelho tenha cerca de 12 mil integrantes (entre realmente “batizados” e associados) apenas no Rio de Janeiro. Após 10 meses de investigação e utilizando 250 agentes, a PCRJ recentemente realizou uma operação na favela do Jacarezinho e diz que conseguiu a proeza de prender 3 e matar 27 supostos traficantes.
Em uma conta grosseira, parece que seriam necessárias 400 operações do mesmo porte, em poucos dias, para não dar tempo de serem substituídos aqueles que forem “neutralizados”. Isso sem levar em consideração outras facções, milícias, quadrilha comuns etc.
Temos, portanto, quatro lições interessantes a tirar desses episódios. A primeira delas é a de que uma série de vitórias aparentes pode levar a uma derrota cabal, se elas não tinham propósitos estratégicos claros ou se os seus custos não eram compensados. A segunda é que matar muito e morrer pouco não é garantia de sucesso em uma guerra. A terceira é que nenhuma guerra é realmente vencida no campo de batalha, mas na economia e na política.
A quarta, que é improdutivo e desmoralizador se ocupar do varejo e perder no atacado, vencer a guerra e perder a paz, enxugar gelo ou esvaziar o mar com uma peneira: suas estratégias devem trazer resultados em quantidade compatível com a dimensão do seu desafio, a custos que você possa pagar, em um prazo que esteja disponível. O resto é tentar mostrar esforço, já que não se tem resultados concretos para exibir.

Henrique Herkenhoff

É professor do mestrado em Segurança Pública da UVV. Faz análises sobre a violência urbana e a criminalidade, explicando as causas e apontando caminhos para uma sociedade mais pacífica. Escreve aos domingos

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