*Com Rodrigo Antônio Freitas Santana de Menezes
Já tem gente demais emitindo opinião sobre o caso do PM/BA Wesley Soares Góes, mas pode ser interessante falar mais genericamente sobre situações assemelhadas, até porque muitos formam ideias bastante hollywoodianas sobre elas.
As forças policiais de todo o Brasil desenvolveram doutrinas próprias, respeitando seus biomas de atuação e baseadas em procedimentos internacionais, para lidar com toda sorte de eventos críticos, em especial situações nas quais alguém se torna uma grande ameaça à vida de terceiros ou à sua própria, haja, ou não, reféns. Equipes especializadas são formadas e exaustivamente treinadas em funções diferentes e atuam como ultima ratio, o ultimo recurso capaz de solucionar o evento critico, como ocorreu no caso, em parte.
Claro que seria preferível resolver tudo usando a negociação, o cansaço e outras ferramentas psicológicas, mas nem sempre é viável. Além disso, as consequências de se insistir em meios não violentos pode ter consequências trágicas, de tal maneira que os comandantes dessas operações quase invariavelmente são colocados diante de escolhas extremamente difíceis e de desdobramentos imprevisíveis.
Por essa razão, todos os envolvidos em gestão de crise devem ser automaticamente isentos de críticas ou responsabilização criminal, visto que é humanamente impossível acertar sempre; aliás, é humanamente impossível saber se acertaram ou erraram.
Por outro lado, raramente existe maneira de neutralizar a ameaça mediante disparos que preservem a vida daquele ser humano. Havia um personagem de quadrinhos que, no Brasil, era chamado de “Zorro de Pistola” (havia o de Espada); no estrangeiro, era chamado “The Lonely Rider”. Ele atirava contra os revólveres de seus oponentes, desarmando-os sem uma gota de sangue. Snipers de verdade não conseguem ser assim tão precisos.
Não existe parte do corpo humano que possa ser atingida sem risco de vida e, além disso, alguém baleado, mesmo mortalmente, quase sempre permanece capaz de esgotar sua munição. A única técnica segura, infelizmente, é atingir o seu bulbo cerebral, o que provocará sua morte instantânea.
Registre-se, também, que a escolha de atirar só cabe ao sniper quando sua missão é solitária. Se admitíssemos que este policial questionasse a adequação de uma decisão superior, todo evento crítico terminaria da pior maneira possível. Não há tempo para questionamentos, todos envolvidos, tanto na gerência da crise como os operadores que servem de alternativa tática, passaram pela mesma formação e dominam a doutrina aplicada.
Tudo tem de ser decidido e executado em uma fração de segundos, sob intensa pressão, completa incerteza e muitas vezes sob flashs de câmeras ligadas que possibilitam julgamentos por imperitos e interpretações errôneas. Esses profissionais já recebem responsabilidade excessiva; não é racional exigir ainda mais deles.
O desempenho em todo evento crítico deve ser investigado, mas apenas para aperfeiçoar as técnicas e melhorar as escolhas, nunca para reprovar pessoas que aceitaram as mais espinhosas missões, muito além das forças humanas, muito além do que o dever policial pode exigir.
* O coautor é mestre em segurança pública e atirador de precisão da Polícia Civil/ES
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta