Os EUA enfrentam neste momento uma crise militar com a Rússia e outra que está ganhando menos atenção, mas igualmente grave, com a China. Não por coincidência, os norte-americanos saíram às carreiras do Afeganistão, embora à primeira vista estivessem no controle e plenamente vitoriosos até então. Algo muito parecido com o que ocorreu no Vietnã, com algo extremamente importante a mais.
A duras penas, os EUA perceberam que ganhar a guerra é muito mais difícil que conquistar a paz. Embora controlando a maior parte do país, eles não tinham sossego com os talibãs. E começaram a notar que matá-los não era um bom negócio, porque cada terrorista tem vários parentes e amigos; cada um que era abatido gerava mais apoio e adesões, fortalecendo o adversário em vez de o enfraquecer. Por isso, modificaram completamente sua doutrina de contra insurgência, mas a história mostrou que foi insuficiente ou tarde demais.
O detalhe é que as forças da coalizão invadiram o Afeganistão em 2001, sem nenhum objetivo estratégico que fizesse sentido, apenas para que os seus governantes mostrassem estar fazendo algo depois do atendado de 11 de setembro, nas Torres Gêmeas. Durante 20 anos, estima-se que os EUA gastaram, além de muito tempo, cerca de U$ 2 trilhões, vendo-se atolados em um conflito em que não eram jamais vencidos, mas que tampouco eram capazes de finalizar. Terminaram abandonando o país e seus aliados locais à fúria do inimigo, de maneira atabalhoada e egoísta.
Tudo isso aconteceu porque os EUA e seus aliados se deram conta de que, enquanto isso, adversários muito mais poderosos haviam criado ameaças geopolíticas muito mais relevantes. Durante sua quixotesca aventura nos desertos do Afeganistão, a Rússia se recuperou do desmonte da União Soviética, ao passo que a China comprou ou produziu armamento de que não dispunha até recentemente.
É muito esclarecedor comparar esses fatos com a “guerra às drogas” declarada pelo presidente Richard Nixon e “comprada” pelo Brasil. Como qualquer leitor sabe, a quantidade de traficantes presos explodiu, as penas passaram por sucessivos aumentos, mas o consumo só fez aumentar – e os lucros, também. E as facções criminosas foram criadas.
Comprometendo a maior parte do efetivo das polícias e sendo responsável pela maior parte dos hóspedes do sistema carcerário, essa política só trouxe resultados negativos no seu objeto e, de quebra, inviabilizou que as instituições dessem a devida atenção a outros crimes tão ou mais graves, como o homicídio, o roubo e o estupro.
Sim, a repressão criminal ao tráfico drenou todos os recursos públicos disponíveis para a segurança, bem como a atenção das autoridades, da mídia e da população. Devidamente satanizados e responsabilizados por tudo de ruim que acontece, os traficantes são substituídos na mesma velocidade com que são presos ou mortos.
Isso se tornou uma espécie de obsessão nacional e só recentemente o ES começou um trabalho bem-sucedido em relação aos assassinatos, mas ainda fica muito a dever em termos de combate a outros crimes violentos.
Bem, não vou sugerir abandonar o nosso “Afeganistão” às moscas, mas é bom a população acordar: temos outros problemas de segurança pública além do tráfico. Não podemos ficar batendo só nessa tecla.