Chega finalmente um ano novinho em folha praticamente emendado com 2020, já que a pandemia, além de virar tudo de cabeça para baixo, congelou planos, investimentos, decisões. É sempre época de balanços, previsões, resoluções e desejos, tudo misturado, quase sempre sem muita racionalidade ou perseverança, ou eu já estaria no meu peso ideal.
Era inevitável que tamanha interferência na rotina das pessoas alterasse todas as estatísticas, inclusive as de violência. E não sabemos o que vai permanecer alterado, o que vai voltar próximo ao que era antes e o que vai evoluir para uma terceira realidade. Ninguém, em sã consciência, arriscaria dizer qual será o novo normal quando a população puder voltar às aglomerações usando apenas as máscaras da falsidade humana. O mesmo acontecerá, obviamente, na segurança pública: apenas os séculos permitirão avaliar, em retrospectiva, o quanto a Covid vai afetar nossos índices de violência e muito menos em que direção.
Em momentos como este, sobram oráculos e futurólogos, espalhando previsões com a mesma precisão e confiabilidade da astrologia, que só atrapalham. Fazem falta, ao contrário, aquelas pessoas que dispõem do raciocínio pós-formal, com diria Piaget, ou caórdicos, como os chamou Dee Hook. São aqueles que conseguem conviver com a incerteza e lidar com o caos, entender que toda confusão tem uma lógica, um modo de funcionar que pode ser observado e ao qual podemos nos adaptar, aproveitando as oportunidades que não surgiriam em tempos normais, bem como evitando os riscos extraordinários.
Neste ano que passou, houve uma redução no número de homicídios no ES; algumas outras ocorrências vieram em maior número, mas outras espécies de crimes também diminuíram.
Como essas alterações não foram bombásticas e o momento é muito atípico, uma imagem estática, um retrato, não é tão importante; o que importa é examinar a dinâmica, um filme, as tendências que começam a se desenhar embrionariamente.
Ganha um troféu Nostradamus quem puder afirmar que os assassinatos vão voltar a diminuir, ou se vamos ter uma trajetória de alta. Não, não é o momento de fazer adivinhações, mas de trabalhar com esses dados precários para traçar estratégias adequadas a este momento atípico, transitório, imprevisível.
Neste cenário, mais que em outros, é hora de reforços maciços em inteligência. Mais do que nunca, é preciso trocar a quantidade pela qualidade das prisões. É, também, momento de robustecer a segurança e o controle sobre quem já está encarcerado, ou seja, investir na estrutura do sistema prisional. Isso é o que cria as bases para lidar com o inusitado, com o imprevisto. Isso é o que previne surpresas desagradáveis. Já é indispensável em tempos normais; quando está tudo revirado, nem precisa falar. Reforços lineares em efetivo, mais armas ou viaturas não têm nem de longe a mesma importância.
O que está acontecendo no mundo real? O que está sendo preparado pelas autoridades públicas? Só elas sabem. É o tipo de coisa que jamais poderá ser dita à população. Para quem está na planície, resta apenas torcer pelo sucesso dos governantes, pois a sociedade é quem vai aproveitar o acertos ou pagar pelos erros em 2022. Tudo precisa mudar para que as coisas continuem como sempre foram.