Um dos aspectos mais importantes e menos estudados da violência é a destruição de riquezas que ela provoca. De um lado, os criminosos sempre causam muito mais prejuízo do que a vantagem que obtêm. Por exemplo, custa caro instalar fiação elétrica nas vias públicas, mas, quando furtada, ela somente poderá ser vendida como sucata para reciclagem.
Na verdade, é de espantar que exista alguém estúpido o suficiente para praticar o crime de receptação, comprando coisa sabidamente produto de crime, por uma tal ninharia. De outra banda, crimes prejudicam as atividades econômicas, especialmente o turismo; ceifam vidas; traumatizam.
Em outras palavras, em paralelo ao drama humano e à perda de bens inestimáveis, a criminalidade implica graves prejuízos à economia e à qualidade de vida até mesmo de quem, embora nunca tendo sido pessoalmente atingido, fica impressionado com o que vê acontecer a terceiros.
Pode parecer frieza, mas a gestão da segurança pública precisa ser o tempo toda feita com base em cálculos e indicadores do sucesso ou fracasso de uma estratégia ou política pública. Por isso, as autoridades devem estar sempre atentas aos reflexos das medidas que adotam em outros campos de interesse da sociedade.
Sem segurança, sem confiança, as pessoas não investem e não se divertem, o pessimismo e a depressão tomam conta de seus espíritos. Assim, a título de ilustração, é sempre prioritário combater o roubo de cargas, muito ele ocorra quase sempre longe das vistas das pessoas, geralmente sem vítimas fatais, etc. Basta comparar a incidência desse tipo de crime no Rio de Janeiro com a do Espírito Santo para perceber quanta diferença faz para as empresas locais.
Quando uma dupla furta fios de cobre, deixa extensas áreas sem iluminação pública, obriga o município a refazer as instalações, tumultua o funcionamento da cidade. Em outras palavras, pode ser muito estratégico combater uma certa infração à primeira vista banal, mas cujos efeitos colaterais são especialmente daninhos. É preciso ter sempre um olho nos desdobramentos de um fato, que podem chegar muito mais longe que outros, ainda que mais estas últimas condutas, em si mesmas, possam receber carga muito maior de reprovação social.
Digamos, muito baixinho, que o desvalor moral de uma determinada conduta, o escândalo e a repulsa que causa à sociedade, não são bons motivos para priorizar ou não o seu combate, imputar-lhe penas mais ou menos severas. No final das contas, é tudo uma questão de fazer contas. Lastimavelmente, a maior parte da população não as faz e assume posições irracionais, insistindo em reações que podem até ser justas, mas não úteis o suficiente.
*Este texto não traduz, necessariamente, a opinião de A Gazeta