Pois é, agora temos bandido de direita e de esquerda no Brasil. A operação no Complexo do Alemão deflagrou, primeiro, acalorados debates ideológicos para logo se transformar em uma prévia da campanha eleitoral, antecipada em um ano. Com raríssimas exceções escondidas aqui e ali, não vi quase ninguém avaliando racionalmente, do ponto de vista estratégico, qual sentido poderia fazer aquele banzé que paralisou toda a cidade e resultou em policiais e criminosos mortos ou feridos e que terminou deixando tudo como dantes.
Pesquisas de opinião pública mostraram claramente haver uma minoria significativa “contra” a operação simplesmente porque não se encaixa em seu viés ideológico ou porque foi realizada pelo adversário político. Do outro lado, uma ampla maioria que, no entanto, deve ser segmentada: há aqueles que apoiam porque são do mesmo partido político, outros porque são a favor da pena de morte, mas predominam aqueles que simplesmente acham que foi melhor que não fazer nada. Estão todos errados. Os únicos sensatos foram o que responderam: não sei/não quero opinar.
Comecemos pelo mais óbvio. Estimam-se em 30 mil os membros do Comando Vermelho. Se levaram um ano para desencadear essa operação e a do Jacarezinho tem quase quatro, nesse ritmo os traficantes vão morrer de queda no banheiro ou diarreia.
Outro dado interessante é que um dos mortos tinha 14 anos e apenas 6 meses no tráfico. Isso dá bem uma dimensão de quão pouco treinamento ele poderia ter quando lhe entregaram um fuzil. Não é preciso dizer que, desse modo, entre presos e mortos, já foram todos substituídos no dia seguinte.
Ah, sim, não tenho números exatos, mas a polícia fluminense devia ter: todos dias uns 30 traficantes do Comando Vermelho são mortos pela própria facção, por rivais, pela polícia etc. É provável que a semana termine dentro da média.
Houve quem sugerisse levar serviços públicos em massa para a região, a fim de evitar que ela seja simplesmente reocupada pelo CV, por outra facção ou por milícias. Uma reprise das UPPs, uma ideia desde o início condenada ao fracasso simplesmente porque o Estado não tem essa capacidade.
Aliás, essa “invasão de cidadania” deveria estar planejada e pronta para ser executada, aguardando apenas a operação policial. Agora é tarde para ter essa ideia. Não, não havia nenhuma estratégia maior por trás da operação, a ideia era apenas prender quem fosse possível, matar quem atacasse os policiais, mas nem sequer saberiam o que fazer com um resultado dez vezes melhor. No plano não havia um “day after”.
Mas também não se pode ser contra por ideologia ou por opinião preconcebida. Se a operação pudesse ter resultados definitivos, talvez fosse o caso de enterrar todo mundo, construir uma praça com a estátua dos quatro policiais mortos e criar um feriado estadual. Só que não podia.
Não é que necessariamente tenha sido mal planejada ou mal executada: apenas não tinha outros objetivos além de não passar por omisso. Poderia haver terminado muito melhor ou pior e só faria diferença para quem foi atingido no episódio. Para a população local e para o restante da cidade, tudo voltará à rotina e em breve os policiais tombados terão sido esquecidos.