Com a Covid-19 se espalhando, o sistema carcerário capixaba foi isolado como nunca antes, a fim de conter a disseminação da doença. Um efeito colateral é que os chefes das facções criminosas, neste momento, estão com as comunicações praticamente cortadas. Terá isso ajudado a reduzir os homicídios? Será que isso afetou também o tráfico e outros delitos? Essas perguntas podem valer mais do que a resposta.
Já andamos falando aqui sobre como a Ciência de Redes revela aquilo que é, ao mesmo tempo, a grande força e a maior fraqueza das facções criminosas, milícias e quaisquer outras organizações criminosas. De um lado, elas praticamente não são afetadas pela prisão de seus integrantes, mesmo que em grande número; de outro, elas desmoronam se for totalmente eliminado um pequeno percentual de suas conexões, desde que isso ocorra de maneira precisa e coordenada.
Note-se que a importância de uma conexão não sinônimo de posição hierárquica, mas cortar completamente o bate-papo dos líderes conhecidos com seus subordinados em liberdade já seria um passo.
Como sabemos, em condições normais, os presídios brasileiros apenas contêm fisicamente os seus internos e, de fato, não seria viável – nem necessário – manter todos os presos sem visitação, por exemplo.
Contudo, este momento catastrófico para a sociedade está fornecendo um “laboratório” interessantíssimo, pois tudo indica que, sem receber autorização dos criminosos encarcerados, aqueles em liberdade estão muito menos ativos e, em particular, isso parece estar ajudando as polícias no seu incessante trabalho de conter os assassinatos.
Mais uma vez, o óbvio fica acenando ridiculamente para nós, como um boneco nos postos de combustíveis: colocar os criminosos atrás das grades é apenas uma parte do trabalho e não basta evitar que fujam. As cadeias brasileiras podem não ser um lugar divertido, mas pelo menos são o mais seguro de onde se pode continuar traficando.
Em um presídio superlotado, aqueles que comandam o crime organizado recebem a mesma vigilância que os ladrões de galinha, ou seja, nenhuma.
Se quisermos mais segurança, é preciso modernizar radicalmente nossas prisões, onde o problema está sendo apenas guardado, não resolvido. Isso significa modernizar a estrutura física, mas também a jurídica e, decididamente, trocar a quantidade de hóspedes pela “qualidade”.
Prender bem é mais importante (e barato) que prender muito, mas implica limitar e controlar rigorosamente o contato de alguns com o mundo exterior.