Acho que essa história de crime organizado vai virar uma trilogia de quatro ou cinco colunas... A questão de hoje é a facilidade de confundir quadrilhas comuns de traficantes com facções criminosas.
Para começo de conversa, organizações criminosas do tipo facção, propriamente ditas, são apenas aquelas que têm grande domínio do que acontece dentro dos presídios. Na verdade, elas nasceram não para cometer crimes, mas como “sindicatos” de detentos e só com o tempo passaram a ter membros atuando nas ruas. Traficantes adoram se autodenominar “comando”, mas isso não necessariamente significa que sejam mais que quadrilhas grandes.
Na coluna passada, explicamos que organizações não são um amontoado de gente, mas uma instituição, com estruturas e normas internas que lhes permitem continuar existindo mesmo que nenhum de seus fundadores ainda esteja ali. Podem durar séculos. O mesmo acontece com organizações criminosas: seus membros são presos, assassinados ou mesmo morrem de velhice e a Cosa Nostra continua lá, tal como as Yakuza, as Tríades Chinesas etc.
Acontece que o tráfico funciona como um comércio, embora ilícito. Há clientes, isto é, uma pressão de demanda. Assim, quando alguns são presos ou mortos, a firma simplesmente admite novos “colaboradores”. Mesmo que a polícia consiga prender todos de uma vez, logo um novo bando vai ocupar o “ponto comercial”.
Sob a ótica dos consumidores, dos vizinhos, da polícia e da sociedade em geral, nada mudou. As moscas foram trocadas, mas o lixo continua ali. Assim, cria-se a ilusão de estarmos diante de uma organização criminosa, quando há apenas uma sucessão de quadrilhas atuando no mesmo local ao longo do tempo.
O policial fica sempre com a impressão de estar enxugando gelo, mas isso acontece tanto com organizações criminosas, dedicadas ou não ao comércio de substâncias ilícitas, como com a venda e consumo de psicoativos proibidos, considerados em si mesmos. Mas a diferença prática é que as estratégias de enfrentamento precisam ser adequadas a cada realidade.
Tomando o Primeiro Comando de Vitória como exemplo concreto, não tenho como afirmar se ele constitui, ou não, uma organização criminosa. Para isso, precisaria de informações de inteligência que, obviamente, não estão disponíveis ao público. Mesmo que seja, podemos afirmar que ele está, no máximo, em estágio embrionário, e que não domina as cadeias capixabas que, embora superlotadas, vêm sendo mantidas sob controle pela Sejus. Não estou afirmando que o PCV não vai evoluir se tiver oportunidade nem que o nosso sistema carcerário é perfeito, mas isso não é uma realidade atual.
São fatos que as secretarias de Segurança devem levar em consideração na hora de traçar as melhores estratégias para enfrentamento dessa realidade que só elas mesmas conhecem (ou têm como conhecer). Só tenho como fazer uma afirmativa categórica: por paradoxal que possa parecer, combater o tráfico não afeta as organizações traficantes.
Aliás, o tráfico enquanto cadeia econômica ilegal, também não está nem aí para prisões e apreensões, mas isso é outra história que já discutimos em colunas passadas e à qual podemos voltar no futuro.
Aguardem os próximos capítulos.