Certo grupo político promete causar problemas na próxima eleição presidencial. Um difícil teste, portanto, será aplicado na democracia brasileira em 2022, o que nos leva a indagar: da redemocratização até aqui, alguma liderança ou partido já buscou tumultuar o processo eleitoral?
Considerando apenas as disputas para presidente da República, a resposta é não. Em 1989, no primeiro pleito presidencial após a ditadura militar, Fernando Collor (PRN) e Lula (PT) se enfrentaram no segundo turno. Divulgado o resultado, o petista reconheceu a legitimidade do novo governo e chamou o adversário, segundo reportagem do Jornal do Commercio, de “a maior mentira que já existiu neste país”. Apesar das duras críticas, respeitou a vontade da maioria.
Em 1994 e 1998, Lula sofreria duas derrotas para Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Na primeira, o candidato do Partido dos Trabalhadores declarou ao Jornal do Brasil: “Torço para que o Fernando Henrique cumpra o que prometeu, mas só conseguirá com pressão da sociedade”. Quatro anos depois, com 57% do eleitorado votando em urnas eletrônicas, os petistas criticaram a influência do poder econômico na eleição e a suposta parcialidade da mídia e das pesquisas, mas não ao ponto de considerar a apuração fraudulenta.
De 2002 a 2014, o jogo virou e o PT venceu quatro eleições presidenciais seguidas, todas contra o PSDB. Em 2002, o vencido José Serra reagiu como um democrata, conforme noticiado pelo Correio Brasiliense: “José Serra telefonou para o adversário Luiz Inácio Lula da Silva, reconhecendo a derrota e parabenizando Lula pela vitória. ‘Estou lhe telefonando para reconhecer sua vitória’, disse José Serra. ‘Você foi um adversário muito leal’, respondeu Lula. A ligação durou cerca de três minutos e foi muito amistosa”.
Em 2010, agora contra Dilma Rousseff, Serra repetiu o gesto em discurso transmitido pela televisão: “No dia de hoje, os eleitores falaram e nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo. Quero aqui cumprimentar a candidata eleita Dilma Rousseff e desejar que ela faça bem para o nosso país”. Quatro anos antes, o presidenciável Geraldo Alckmin também colocou a democracia em primeiro lugar: “A democracia é uma beleza. Liguei para o presidente Lula, desejando a ele um bom mandato, que é o que todos nós queremos”.
O ano de 2014 testemunhou a reeleição de Dilma Rousseff contra Aécio Neves. O tucano, embora tenha cumprimentado a opositora pela vitória, destoou dos correligionários e estimulou o PSDB a pedir auditoria para verificar possíveis falcatruas na eleição. Sem nenhuma evidência de irregularidades, o próprio Aécio reconheceu em nota divulgada recentemente: “Eu não acredito que tenha havido fraudes nas urnas em 2014”.
Na última, a de 2018, o PT perdeu a quarta de oito eleições presidenciais disputadas. Registre-se que o candidato petista Fernando Haddad rompeu a tradição e não telefonou para Jair Bolsonaro (na época PSL), mas no dia seguinte à eleição, pelo Twitter, dirigiu-se cordialmente ao adversário: “Presidente Jair Bolsonaro. Desejo-lhe sucesso. Nosso país merece o melhor. Escrevo essa mensagem, hoje, de coração leve, com sinceridade, para que ela estimule o melhor de todos nós. Boa sorte!”.
Em suma, os perdedores de 1989 a 2018 renderam-se ao voto. Os eleitos tomaram posse normalmente, não houve desordem e nem tentativas de golpes de Estado, ou seja, a solidez da democracia brasileira garantiu o direito de escolha do cidadão e evitou qualquer reação autoritária.
Diante do quadro apresentado, é importante que as instituições e a sociedade permaneçam vigilantes em defesa da soberania popular e atuem preventivamente para impedir retrocessos. Nesse sentido, caso tentem subverter a ordem em 2022, a resposta precisa ser rápida e clara: processo, julgamento e prisão.