Qualquer brasileiro lúcido sabe que em 8 de janeiro de 2023 o bolsonarismo tentou, através da invasão dos prédios dos Três Poderes, em Brasília, construir um ambiente de instabilidade política capaz de resultar em um golpe de Estado, afastando da presidência da República o recém-empossado Luiz Inácio Lula da Silva. Os golpes de Estado ocorrem assim: diante de um ambiente de convulsão social as Forças Armadas intervêm para “restaurar a paz e a democracia”.
Foi assim em 1964 quando João Goulart estimulou os sindicatos trabalhistas a irem às ruas e os níveis intermediários da hierarquia militar à insubordinação. Jango, confiante que teria o apoio das Forças Armadas, não contava com o contra-golpe: para restaurar “a ordem”, a 4ª Região Militar e a 4ª Divisão de Infantaria de Juiz de Fora, tendo à frente o General Olympio Mourão Filho, marcharam em direção ao Rio de Janeiro e João Goulart foi deposto.
Os bolsonaristas imaginavam algo semelhante: com manifestantes acampados em frente aos quartéis do Exército em vários Estados brasileiros, inclusive no QG de Brasília, pedindo intervenção militar, e a invasão dos prédios do Palácio do Planalto, do Supremo Tribunal Federal e do Congresso Nacional, as Forças Armadas iriam agir para “restaurar a ordem”.
A operação foi, entretanto, um tiro no pé: os militares não aderiram ao golpe e a marcha dos bolsonaristas em 8 de janeiro em Brasília, graças também à inoperância do esquema de proteção aos edifícios públicos, resultou na vandalização dos prédios dos Três Poderes e na prisão de 400 manifestantes em flagrante delito. Outras 1,2 mil pessoas, que estavam acampadas em frente ao Quartel-General do Exército em Brasília foram detidas no dia seguinte.
É preciso lembrar que, além dos acampamentos em frente aos quartéis do Exército, houve ocorrências que prenunciavam a tentativa de golpe. Em 24 de dezembro de 2022, duas pessoas colocaram uma bomba nos arredores do aeroporto de Brasília. O explosivo, em um caminhão de combustível carregado de querosene de aviação, só não explodiu porque um motorista, que passava nas proximidades, denunciou o fato à polícia. Nos dias que antecederam à depredação dos prédios dos três poderes, 4 mil pessoas desembarcaram dos ônibus que chegaram a Brasília atendendo a convocações postadas nas redes sociais.
A frustrada tentativa de golpe de 8 de janeiro seguiu, com variações, o que Donald Trump, ídolo de Bolsonaro, tentara fazer dois anos antes em Washington para tentar impedir a posse de Joe Biden. No dia em que a vitória de Biden seria confirmada no Congresso americano, centenas de apoiadores de Trump invadiram o Capitólio e chegaram a interromper a sessão do parlamento.
Na invasão, 140 policiais ficaram feridos e cinco pessoas morreram, sendo três policiais e dois manifestantes. Mais de duzentas pessoas foram indiciadas por agressão e impedimento da aplicação de lei. A sessão do Congresso, retomada horas depois, confirmou a posse de Biden como presidente dos Estados Unidos.
Em ambos os casos – o 8 de janeiro no Brasil e o 7 de janeiro nos Estados Unidos – o candidato derrotado esteve na linha de frente dos estímulos ao golpe. Tanto Bolsonaro como Trump denunciaram, durante todo o processo eleitoral, que as votações seriam fraudadas. Bolsonaro disseminou a narrativa de que a urna eletrônica era uma fraude; Trump via fraude na votação em papel adotada nos Estados Unidos. Seus seguidores, até hoje, acreditam que seus líderes teriam sido vitoriosos se as eleições tivessem sido “limpas”.
Apesar de terem sido frustradas as tentativas de golpe de Estado, as ameaças contra a democracia continuam vivas tanto no Brasil como nos Estados Unidos. Mesmo com Bolsonaro sendo considerado inelegível, o bolsonarismo lançará seus candidatos com boas chances de ganhar as eleições nas capitais dos principais Estados do Brasil, apesar de achar que as urnas eletrônicas não são confiáveis. Nos Estados Unidos as pesquisas indicam que Trump, apesar das derrotas e condenações sofridas, continua sendo líder de grande parte dos eleitores americanos.
É sinal que, tanto lá quanto aqui, a democracia ainda corre riscos de servir de escada para a chegada ao poder de antidemocratas convictos que, mesmo se passando por democratas, não se constrangem em defender o fim do Estado de Direito.