Lula anunciou na campanha que queria governar com uma frente ampla, tão ampla que acomodou, como candidato a vice-presidente, um opositor histórico, Geraldo Alckmin, que com ele disputou a Presidência da República em 2006. Vídeo antigo exibido durante a campanha eleitoral de Bolsonaro, no ano passado, mostrava Alckmin criticando Lula de querer “voltar ao local do crime”, em uma clara alusão às acusações de corrupção feitas ao petista.
Após receber a faixa presidencial, no último domingo, Lula reafirmou que “é hora de olhar para frente”, já que é necessário “reatar laços”, “olhando para o nosso luminoso futuro comum e não pelo retrovisor de um passado de divisão e intolerância”. Disse, ainda, que “a disputa eleitoral acabou; não existem dois Brasis” e que “não é hora para ressentimentos estéreis”. E mais: “Essa extraordinária vitória da democracia nos obriga a olhar para frente e esquecer nossas diferenças, muito menores que o que nos une para sempre: o amor pelo Brasil e a fé inquebrantável em nosso povo”.
Mas o episódio ocorrido no mês passado, no qual Edmar Camata foi convidado para ser o novo diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal e desconvidado no dia seguinte, mostra que a frente ampla de Lula não é tão ampla assim. O fato concreto é que Flávio Dino, na época futuro ministro da Justiça de Lula, convidou Camata, no dia 20 de dezembro, para assumir o comando da PRF. Mas, no dia seguinte, meia hora antes do anúncio oficial da escolha, Camata recebeu um telefonema de um assessor de Dino informando que o convite estava retirado porque “houve impedimentos absolutos que não poderiam ser transpostos”.
Ao jornal “O Globo”, Flávio Dino explicou que desistiu de nomear Edmar Camata após a revelação de que ele fez, anos atrás, nas redes sociais, críticas a Lula e manifestações de apoio à Operação Lava Jato. À jornalista Bela Megale, de “O Globo”, Camata disse que “as postagens refletiam a leitura de um momento” e que “muitos brasileiros acreditaram na Lava Jato”.
A colunista Letícia Gonçalves, de A Gazeta, revelou que “não demorou a surgir um vídeo do próprio Flávio Dino, em entrevista antiga, elogiando o então juiz Sergio Moro que conduziu a Lava Jato em Curitiba”.
Edmar Camata não deve lamentar o ocorrido, mesmo que, para ele, fosse uma honra ser diretor-geral da PRF, já que é policial rodoviário federal de carreira. Mas, tão ou mais importante que isso, é Camata poder exibir, em seu currículo, a sua excelente atuação, de 2006 a 2018, na ONG Transparência Capixaba, braço da Transparência Brasil, ocasião em que se notabilizou no combate à corrupção, principalmente nos quatro anos que dirigiu a organização.
Foi nessa época que ele criou o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral e participou do Movimento “Unidos contra a Corrupção” e da campanha “10 Medidas Contra a Corrupção”.
Desde janeiro de 2019, Camata comanda a Secretaria de Estado de Controle e Transparência do Governo do Espírito Santo, tendo sido, felizmente, confirmado no cargo no novo mandato do governador Casagrande iniciado no dia 1º. Sobre o episódio do convite e desconvite, o governador chegou a comentar, em entrevista à Rádio CBN, que “muita gente decente, quando surgiu a Lava Jato, apoiou mesmo”.
Aliás, com relação à Lava Jato, Camata deve se orgulhar de tê-la apoiado. Afinal, ela é a mais importante iniciativa de combate à corrupção da história do Brasil, sendo a responsável pela condenação de 174 cabeças coroadas da nossa República, tendo desnudado um gigantesco esquema de “corrupção sistêmica e endêmica” conduzido pela classe política, como bem definiu o ministro do STF Luís Roberto Barroso.
Operação que, lamentavelmente, foi desmontada pelas forças da reação incrustadas nos três poderes da República que, no seu mais recente e triste capítulo, chegaram ao cúmulo de tirar da cadeia um ex-governador do Rio condenado a mais de 400 anos de prisão.