A Operação Carbono Oculto, realizada no dia 28 de agosto pela Receita Federal e organizações parceiras, revelou o mega esquema de fraudes e de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis que movimentou R$ 52 bilhões de 2020 e 2024. A prática inclui a importação, produção, distribuição e comercialização de combustíveis e envolve 350 pessoas em vários Estados brasileiros, inclusive no Espírito Santo. Não é sem razão que a operação foi considerada a maior já realizada contra o crime organizado na história do país.
As investigações comprovaram que 40 fundos de investimentos foram utilizados como estratégia de ocultação de patrimônio e resultaram, neste primeiro momento, no bloqueio de mais de R$ 1 bilhão em bens dos envolvidos. De acordo com as apurações, um sofisticado esquema lavava o dinheiro proveniente do crime, obtinha elevados lucros na cadeia produtiva de combustíveis (que eram adulterados para aumentar os ganhos) com o uso de centenas de empresas para dissimular o caminho percorrido pelo dinheiro de origem criminosa.
O fato escancara a dimensão do crime organizado no Brasil e serve de alerta para a necessidade do combate permanente à corrupção que, infelizmente, campeia na sociedade brasileira. Não é sem razão que o STF, o 2 TCU e a Polícia Federal estão de olho em 40 mil emendas parlamentares liberadas entre 2020 e 2024, as chamadas emendas Pix, nas quais há suspeitas de lavagem de dinheiro e conexão com o crime organizado. No próximo dia 23 o ministro do STF Flávio Dino promoverá mais uma audiência pública para tentar verificar como anda o monitoramento sobre o destino dessas emendas.
Em 2020, um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro intitulado “Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro” revelou que as milícias controlavam 41 bairros do Rio, onde moravam 2,1 milhões de pessoas. E que as organizações criminosas, aí incluídas também as facções ligadas ao tráfico de drogas, estavam presentes em 96 dos 163 bairros da capital carioca que abrigavam 6,7 milhões de habitantes.
O estudo demostrou que essas organizações atuavam no controle das atividades da distribuição de gás, do mercado imobiliário, do fornecimento de energia elétrica e internet, além do tráfico de drogas, roubos e receptação de produtos roubados. Nada indica que tal situação tenha melhorado e que seja restrita ao Rio de Janeiro, já que pesquisa recente do Fórum Brasileiro de Segurança constatou que 19% da população brasileira revelam morar em áreas onde existe a presença explícita do crime organizado sem que haja ações efetivas para coibi-lo.
As iniciativas concretas dos poderes públicos no combate ao crime organizado ainda são tímidas se comparadas à dimensão do problema. Uma PEC (18/25) proposta pelo Governo Federal pretende mudar a estrutura da segurança no país, mas patina em discussões intermináveis na comissão especial que trata do assunto na Câmara dos Deputados. Há muitas divergências com relação aos papéis das polícias e guardas municipais, à integração das forças de segurança e à coordenação que seria exercida pelo Governo Federal. Mas a maioria dos parlamentares parece admitir que é 3 preciso reorganizar o sistema constitucional de segurança e integrar as agências que combatem o crime organizado para dar maior efetividade às ações das forças policiais.
Enquanto isso, resta à sociedade brasileira torcer para que as autoridades públicas passem a dar ao combate ao crime organizado a importância que ele merece. Antes que o crime organizado acabe de vez com o pouco que resta da frágil segurança que ainda desfrutamos nas nossas casas e nas ruas das nossas cidades. Ruas e cidades que (será?) ainda podemos chamar de “nossas”?