Na abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, Jair Bolsonaro disse, ao se referir às ações do seu governo “na busca do tratamento precoce” na pandemia da Covid-19, que “a história e a ciência saberão responsabilizar a todos”. Se assim é, a CPI da Covid presta um grande serviço ao país ao desnudar e apresentar provas dos desacertos do governo federal e apontar os responsáveis pelo agravamento da contaminação que vitimou mais de 600 mil brasileiros nos últimos dezoito meses.
A CPI, durante os seis meses de atuação, conseguiu comprovar muitas coisas sobre as quais só haviam suspeitas, como por exemplo o incentivo do governo à descabida “imunidade de rebanho” ao estimular que todos desrespeitassem o isolamento social e saíssem às ruas para se contaminar. A CPI aponta, também, a negligência com que o governo tratou o início da vacinação, fechando as portas à Pfizer e sabotando a Coronavac, ao mesmo tempo em que acolhia propostas feitas por comprovados picaretas.
A vacinação, ficou claro para a CPI, foi sabotada por uma rede de desinformação, e só deslanchou por pressão da imprensa, dos governadores e da maioria da população que não se deixou influenciar pelas fake news espalhadas nas redes sociais pelo gabinete de ódio governista.
A conspiração contra a saúde dos brasileiros, informa a CPI, foi potencializada pelo gabinete paralelo, formado por empresários e profissionais negacionistas, que junto com o governo disseminou a propaganda do tratamento precoce com medicamentos ineficazes – e, pior do que isso, contraindicados aos casos de Covid-19 – fartamente distribuídos pelo próprio governo.
Tratamento precoce esse que, como revela a CPI, inspirou até mesmo experimentações sem qualquer fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar, que chegaram ao cúmulo de fraudar prontuários de doentes e até atestados de óbito.
As responsabilidades do governo vão além, denuncia a CPI. Vão do desprezo às normas sanitárias até a sabotagem às medidas de prevenção – como o isolamento social e o uso de máscaras – e a tentativa de manipular a quantidade de mortes por Covid-19.
Para comprovar essas irregularidades, a CPI trabalhou duro e contou com a colaboração até mesmo do presidente da República, que promoveu a cloroquina em lives e defendeu explicitamente o tratamento precoce na Assembleia da ONU. Bolsonaro, em Nova York, desfilou sem máscara e revelou, sem corar, no encontro que teve com o premier britânico Boris Johnson, não ter se vacinado. Maior confissão que essa, com relação às suas responsabilidades na condução do governo na pandemia, é impossível.
A CPI da Covid, ao finalizar os seus trabalhos – por mais incrível que isso possa parecer –, vem confirmar um vaticínio feito próprio pelo presidente do Brasil, logo ele que é o acusado de ser o principal responsável pelas mortes dos brasileiros: “A história e a ciência saberão responsabilizar a todos”.