Em 48 horas, o presidente Jair Bolsonaro protagonizou um grande cavalo de pau. No dia 7, diante dos seus seguidores, chamou um ministro do STF de “canalha” e ameaçou não cumprir as suas decisões judiciais, em ataque frontal ao Judiciário. Também chamou as eleições de “farsa (...) patrocinada (...) pelo presidente do Tribunal Superior Eleitoral” por não terem “voto auditável e contagem pública dos votos”, declaração que contém uma acusação ao TSE e uma afirmação que não aceita a decisão do Legislativo que derrotou a proposta do voto impresso.
No dia 9, o presidente surpreendeu a nação ao se retratar: “Nunca tive nenhuma intenção de agredir quaisquer dos Poderes”. E mais: “Minhas palavras (...) decorreram do calor do momento”. Quanto ao ministro Alexandre de Moraes, a quem havia chamado de “canalha”, disse reconhecer “suas qualidades como jurista e professor” e que as “naturais divergências” devem “ser resolvidas por medidas judiciais”. E concluiu: “Reitero meu respeito pelas instituições da República, forças motoras que ajudam a governar o país”.
Entre o momento das agressões e o das retratações, Bolsonaro pediu ao ex-presidente Michel Temer, autor da indicação ao Supremo do nome de Alexandre de Moraes, que o ajudasse a redigir a “Declaração à Nação”. Desde então os analistas políticos tentam decifrar as razões que levaram o presidente a dar a guinada de 180 graus em tão pouco tempo após sair empolgado dos comícios de Brasília e de São Paulo.
Tudo indica que Bolsonaro percebeu que, embora as manifestações tivessem tido uma presença expressiva de público, as reações aos seus discursos partidas dos demais Poderes da República e de numerosas entidades da sociedade civil denunciavam que ele havia ultrapassado todos os limites e evidenciavam propósitos golpistas repelidos até por partidos e lideranças políticas que a ele se alinham.
No dia 8, o pronunciamento do presidente do STF, em nome de todo o Judiciário, já explicitava a ultrapassagem dos limites: “Se o desprezo às decisões judiciais ocorre por iniciativa do chefe de qualquer dos Poderes, essa atitude, além de representar um atentado à democracia, configura crime de responsabilidade”, disse Luiz Fux. No dia seguinte, o presidente do TSE, Luís Roberto Barroso, completou: “A falta de compostura nos envergonha perante o mundo” e, por isso, nós, brasileiros, “somos vítima de chacota e desprezo mundial”.
O Legislativo também reagiu. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou que há uma “crise real” no país e que a solução para os problemas “não está no autoritarismo, nos arroubos antidemocráticos, não está em questionar a democracia”. Até o presidente da Câmara, fiel aliado de Bolsonaro, criticou as “bravatas em redes sociais” e disse não admitir “questionamentos sobre decisões tomadas e superadas, como a do voto impresso”. A essas manifestações seguiram-se outras, de partidos e lideranças políticas, em favor do impeachment do presidente.
Acossado por todos os lados, isolado pelos ataques que proferiu, Bolsonaro foi obrigado a recuar. Até quando, só Deus sabe.