São numerosos os analistas políticos que não veem uma relação direta entre as manifestações de rua de 2013 – iniciadas com os protestos contra o aumento de R$ 0,20 na tarifa de transporte de São Paulo e que logo incorporaram outras reivindicações mais amplas de saúde, educação, combate à corrupção e menos impostos – e a atual polarização da política brasileira entre lulistas e bolsonaristas.
Mas não é possível desconhecer que foi a partir daquelas manifestações que o cenário político brasileiro mudou radicalmente a ponto de ter acabado com a polarização PT-PSDB e obrigado os partidos políticos a se reformularem, tanto que quase todos chegaram a alterar até os seus nomes.
É verdade que os partidos mudaram – o PMDB perdeu o “P”, o PTN virou Podemos, o PPS agora é Cidadania, o PEN é Patriotas, o PTdoB se chama Avante, o PP é o Progressistas, o PR se tornou PL, o PRB Republicanos, o PSDC é Democracia Cristã, e surgiram o Rede Sustentabilidade, o Novo, o Solidariedade e o União Brasil (esse último resultado da fusão do Democratas com o PSL) – mas, convenhamos, os caciques políticos continuam os mesmos.
Contudo, não há como negar que foi uma mudança e tanto porque mesmo os partidos que mantêm suas denominações originais, como o PT e o PSDB, perderam a hegemonia de que desfrutavam há dez anos.
As manifestações de 2013 – após o primeiro período em que foram contaminadas pelas depredações dos “black blocs” – pavimentaram o caminho para o crescimento da campanha anticorrupção que representou um imenso apoio popular às investigações da Lava Jato que desnudaram o maior esquema de corrupção sistêmica da nossa história recente.
Data dessa época a perda de protagonismo da esquerda que até então monopolizava as manifestações de rua, substituída por multidões apartidárias, descoladas dos partidos tradicionais, que mobilizaram os maiores atos públicos já registrados no país ao exigirem o impeachment de Dilma Rousseff.
Não é possível dizer que vem daí o surgimento da direita brasileira, já que ela existia antes, mas era acanhada, não se manifestava, com um comportamento quase envergonhado. É possível, porém, dizer que a direita ganhou força, se transformando no que muitos chamam de “nova direita”, a ponto de vencer as eleições para a presidência da República em 2018.
Essa “nova direita” ganhou adeptos em todos os estratos sociais, principalmente entre os idosos – parcela que mais cresce na sociedade –, tomando gosto em ir às ruas.
Jair Bolsonaro, que não teve qualquer protagonismo nas grandes manifestações de 2013 e nem nas articulações pelo impeachment de Dilma, soube aproveitar o momento para, através da defesa da pauta de costumes tão ao gosto da comunidade cristã e do uso intensivo das mídias digitais, ganhar notoriedade e surgir como alguém capaz de liderar um movimento que se dizia apolítico, mas disposto a buscar votos nas eleições para impedir o retorno da esquerda ao poder.
Foi em maio de 2013, em uma manifestação de evangélicos em apoio ao presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Marco Feliciano, em Brasília, que Bolsonaro usou pela primeira vez, ao discursar, aquele que seria o slogan da sua campanha para a presidência: “Deus acima de tudo”.
De lá para cá, a cena política brasileira se transformou. Bolsonaro chegou à presidência da República com o maciço apoio da “nova direita” ao vencer Haddad, o candidato do PT, já que Lula, condenado e preso, havia se tornado inelegível. Solto pelas filigranas jurídicas engendradas pelo seu advogado – agora premiado com uma indicação para o STF – e apoiadas por parte dos ministros do Supremo, Lula disputou as eleições de 2022 e retornou à presidência ao vencer Bolsonaro por 1,8% dos votos.
Hoje, como rescaldo de 2013, nunca a polarização esteve tão cristalizada, já que, segundo o Datafolha, 29% dos brasileiros se dizem petistas e 25% se consideram bolsonaristas convictos. É sinal que mesmo que Bolsonaro venha a se tornar inelegível nos processos que enfrenta no Supremo, ainda teremos que conviver com essa polarização por muito tempo, sem qualquer possibilidade de, no curto prazo, surgir outra alternativa menos radical no horizonte político brasileiro.