Assim como muitos outros agentes públicos, o presidente Lula é mestre em tentar eleger culpados pelos erros do seu governo, terceirizando responsabilidades. Foi assim, por exemplo, nos dois primeiros anos do seu atual mandato quando culpou o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, pelos problemas eu enfrentava.
Dizia Lula, dia sim e outro também, que a taxa de juros Selic, decidida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) – que é formado pelo presidente do Banco Central e integrantes da diretoria colegiada do banco – era a grande culpada pelas dificuldades que enfrentava.
Em julho do ano passado Lula disse que “o Banco Central não pode estar a serviço do mercado” e que não tinha que prestar contas a “banqueiro” ou a “ricaço”, mas sim “ao povo pobre do país”. Um mês antes chegou a criticar a autonomia operacional do Banco Central (estabelecida por lei), inconformado com a taxa Selic que, na época, era de 10,5% ao ano: “Autonomia de quem? Para servir a quem? Quem quer o Banco Central autônomo é o mercado”.
Em várias ocasiões Lula se referia ao presidente do Banco Central como “esse rapaz” que “tem um comportamento anti-Brasil”, “um cara que fala mal do Brasil o tempo inteiro”. “Só de juros, no ano passado, foram R$ 790 bilhões que a gente pagou”, desabafou Lula em junho.
Revelando não compreender a função do Banco Central, que é a de, através da política monetária na qual está incluída a fixação da taxa de juros, tentar colocar o país no caminho que leve ao cumprimento da meta de inflação (de 3% ao ano), Lula prometeu, no ano passado, indicar, “um sucessor (de Campos Neto) que tenha a coragem de reduzir a taxa de juros”.
A obsessão de Lula com relação a Campos Neto decorria do fato de que o mandato do presidente do Banco Central só terminaria – como de fato terminou – em 31 de dezembro de 2024. Para exonerá-lo antes dessa data Lula teria, de acordo com a legislação, que justificar a demissão e receber o aval do Senado, o que era inviável considerando que o Copom nada fazia a não ser cumprir o seu papel. Acrescente-se que o Copom, onde estavam quatro indicados por Lula – em um total de nove integrantes – quase sempre decidia a fixação da taxa de juros por unanimidade.
Campos Neto deixou a presidência do Banco Central em 31 de dezembro de 2024 – quando a taxa Selic era de 12,25% – e o seu sucessor, escolhido por Lula, foi Gabriel Galípolo. Galípolo que, no entendimento de Lula, seria o tal que teria “a coragem de reduzir a taxa de juros”. E o que aconteceu desde então? As três reuniões do Copom, realizadas em 30/1/25, 20/3/25 e 8/5/25, decidiram, por unanimidade, aumentar ainda mais a taxa de juros para 13,25%, 14,25% e 14,75%. E qual foi a reação de Lula? Silêncio total.
As razões que levaram o Copom a aumentar a taxa Selic neste ano são, basicamente, as mesmas dos aumentos anteriores: a pressão inflacionária ocasionada, principalmente, pelos gastos do governo que estouram o orçamento e turbinam o endividamento público. A inflação já ultrapassou o limite da meta (em março atingiu 5,53%) e a dívida pública se aproxima dos 80% do PIB (em março chegou a 75,9%).
Com toda elegância, o Copom justificou a alta da taxa de juros na ata da sua última reunião pelo “crescimento mais forte nos últimos meses dado a estímulos fiscais” já que a política fiscal “é um dos elementos que considera para definir a taxa de juros”. Em outras palavras: o crescimento do PIB tem sido turbinado pelos gastos do governo que geram mais inflação que, para ser controlada, exige uma taxa de juros em um patamar que iniba o consumo.
Será que, algum dia, Lula será capaz de compreender que, se não cortar gastos, a taxa de juros precisará aumentar ainda mais? Ou vai continuar responsabilizando os outros pelos problemas do seu governo?