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1964

Militares brasileiros não embarcaram na aventura de repetir erros do passado

Em 1964, sob o pretexto de livrar o país do comunismo – é só lembrar das Marchas da Família com Deus pela Liberdade que se multiplicaram por todos os estados brasileiros – o país passou a ser governado por militares durante 21 anos de autoritarismo

Publicado em 05 de Abril de 2024 às 01:35

Públicado em 

05 abr 2024 às 01:35
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

jccsvt@terra.com.br

Conta Elio Gaspari no livro “A ditadura envergonhada” (2002) que, nos meses anteriores a abril de 1964, “havia dois golpes em marcha”, um “de esquerda”, de Jango, que “se destinava a mantê-lo no poder”, e o outro, de parte das Forças Armadas que se destinava “a pô-lo para fora”.
Jango se considerava amparado pelo seu “dispositivo militar” – liderado pelo chefe do Gabinete Militar, Assis Brasil, pelo seu ministro da Guerra Jair Dantas Ribeiro e pelo comandante do II Exército, Amaury Kruel – e, ainda, pelos sindicatos dos trabalhadores, a maioria deles ligada ao PCB. Anos depois, em 1980, em entrevista à “Veja”, Assis Brasil admitiu que “o dispositivo militar, que dizem que eu montei, nunca existiu”.
No dia 1º de abril de 1964, Jango, acompanhado de Assis Brasil, voou de Brasília para Porto Alegre e, em seguida, para uma estância na fronteira com o Uruguai. No dia 4 de abril os dois foram para o Uruguai já que desde o dia 2 o Congresso empossara – legal ou ilegalmente? – como presidente da República o deputado Ranieri Mazzilli. O “dispositivo militar” havia se dissolvido ao aderir às tropas do General Olympio Mourão Filho, em Três Rios, na metade do caminho entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro.
Bolsonaro, quase 60 anos depois, também contava com o seu dispositivo militar para permanecer no poder. Por inúmeras vezes agradeceu, em discurso, a lealdade das “minhas Forças Armadas”, das quais se dizia “comandante supremo”. Elegeu as urnas eletrônicas e o Supremo Tribunal Federal como seus inimigos e repetiu, à exaustão, que o sistema eleitoral não era confiável.
Sustentou, até quando pode, que só perdeu a eleição porque houve fraude. E, de fato, é preciso admitir, havia o apoio de parte das Forças Armadas aos planos de Bolsonaro, como está sendo apurado nas investigações conduzidas pela Polícia Federal e relatado em entrevistas como as dadas ao documentário “8 de janeiro: anatomia de um ataque golpista” da Folha de São Paulo.
Depoimento de Ricardo Capelli, nomeado interventor nas forças de segurança do Distrito Federal em plena rebelião do 8 de janeiro, relata o diálogo de enfrentamento que teve com o comandante da Polícia do Exército em frente ao acampamento dos golpistas montado em área do Quartel Geral do Exército em Brasília.
Ao saber da intenção de Capelli de prender os golpistas no acampamento, o comandante perguntou: “O senhor ia entrar com tropas sem a minha autorização? (...) Porque eu acho que eu tenho um pouquinho mais de tropas (...) O senhor tem que entender que o Brasil está dividido”.
Assim como o “dispositivo militar” de Jango ruiu, também o dispositivo militar que Bolsonaro imaginava ter não aderiu às propostas de golpe apresentadas na reunião ministerial de 5 de julho de 2022 e reveladas nas investigações da Polícia Federal. Felizmente, no caso atual brasileiro, a alternativa ao golpe que pretendia manter o presidente no poder não era um governo militar como ocorreu em 1964, mas a manutenção no poder de um presidente eleito em eleições livres realizadas dentro da vigência do estado democrático de direito.
Em 1964, sob o pretexto de livrar o país do comunismo – é só lembrar das Marchas da Família com Deus pela Liberdade que se multiplicaram por todos os estados brasileiros – o país passou a ser governado por militares durante 21 anos de autoritarismo, censura e toda a espécie de perseguição aos opositores.
Em 2023, felizmente, os militares brasileiros preferiram não embarcar na aventura de repetir os lamentáveis equívocos do passado quando se afastaram do papel que lhes é atribuído pela Constituição Federal – o de manter a lei e a ordem – para assumir o poder pela força contrariando a lei e mandando a ordem às favas.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

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