A grande novidade da corrida sucessória brasileira é a movimentação de Sergio Moro praticamente confirmando a sua disposição de disputar a presidência da República. Moro desembarcou no Brasil – vindo dos Estados Unidos, onde trabalhou para a consultoria Alvarez & Marsal – na segunda-feira, se reuniu na quarta-feira com parlamentares e no próximo dia 10 se filiará ao Podemos. Em seguida, lançará o seu livro “Contra o Sistema de Corrupção” em pelo menos quatro capitais.
O simples anúncio do seu retorno ao país já havia atraído críticas de Lula e Bolsonaro e dos seus seguidores. Os lulistas, é claro, odeiam Moro por ele ter sido o juiz que condenou Lula à prisão. Os bolsonaristas consideram Moro um traidor por ter acusado Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal ao sair do Ministério da Justiça.
As críticas, quase sempre truculentas, revelam que, para esses dois grupos, Moro é uma ameaça real já que poderá assumir o protagonismo da chamada “terceira via”, ou seja, o caminho para quebrar a polarização Lula-Bolsonaro nas próximas eleições. E, que ninguém duvide, o sonho de Lula é disputar o segundo turno das eleições com Bolsonaro e o sonho de Bolsonaro é enfrentar Lula.
Aliás, os discursos que sustentarão as campanhas de Lula e Bolsonaro já estão mais do que definidos: Lula atacará a incompetência de Bolsonaro principalmente no combate à pandemia e na gestão da economia e do meio ambiente, e Bolsonaro atacará Lula relembrando o mar de corrupção descoberto nos governos do PT nos tempos do mensalão e do petrolão. A chegada de uma terceira via competitiva – personalizada por Sergio Moro –, que pode se apropriar desses mesmos discursos em seu proveito, assusta os atuais favoritos e põe em risco o segundo turno sonhado por eles.
Mas nem tudo são flores no caminho de Sergio Moro se de fato ele colocar de pé a sua candidatura. Lula insistirá que suas condenações foram anuladas pelo STF e que as sentenças de Moro foram consideradas parciais. Mas não poderá dizer que foi inocentado e será difícil esconder a corrupção escancarada pela Lava Jato. A própria Petrobras incluiu no seu balanço de 2014, ainda no governo Dilma, perdas de US$ 2,5 bilhões, “valores que a Petrobras pagou adicionalmente” por causa de “um conjunto de empresas que (...) se organizaram em cartel (...) impondo gastos adicionais (...) e utilizando esses valores para financiar pagamentos indevidos a partidos políticos, políticos eleitos ou outros agentes políticos”. Sem falar nos R$ 4 bilhões devolvidos aos cofres públicos por pessoas e empresas condenadas pela Lava Jato.
A ira dos bolsonaristas, por sua vez, se refletirá nas alegações de traição de Moro, que acusou Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. Mas essa interferência se revelou explícita com a substituição de pessoas que ocupam cargos-chave na instituição. Sem falar que o próprio Bolsonaro revelou esse propósito na famosa reunião ministerial de 22 de abril do ano passado, tornada pública pelo STF.
Além de lulistas e bolsonaristas, Moro enfrentará também a oposição do Centrão, o bloco de parlamentares e partidos que buscam tirar proveito dos governos sejam eles quais forem. São políticos que estiveram ao lado de praticamente todos os governos passados, buscando favores que só os donos do poder podem dar. Como boa parte desses agentes públicos ainda responde a processos da Lava Jato, Moro representaria o retorno do combate à corrupção que eles se empenham, atualmente, em desmontar.
O que Moro provavelmente procurará, caso confirme a sua candidatura a presidente, é navegar nesse mar revolto, enfrentando o ódio de lulistas, bolsonaristas e do Centrão, buscando apoio no eleitorado que ainda acreditaria ser possível construir um novo caminho para o país distante da corrupção e do radicalismo dos atuais extremos da política brasileira.