Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Brasil

Presidentes que não governam a língua

Como Lula já tinha exercido dois mandatos presidenciais, era de se esperar eu ele usaria a sua experiência para tranquilizar a nação

Publicado em 31 de Março de 2023 às 00:05

Públicado em 

31 mar 2023 às 00:05
José Carlos Corrêa

Colunista

José Carlos Corrêa

jccsvt@terra.com.br

Lula e Bolsonaro, candidatos à Presidência nas eleições de 2022
Lula e Bolsonaro Crédito: Agência Estado
Quando findou o Governo Bolsonaro, esperava-se que o Brasil tivesse se livrado de um presidente que criava uma crise a cada vez que fazia uma declaração pública. Bolsonaro falava o que lhe vinha na telha sem se importar – ou por não saber – as consequências que as palavras do presidente têm sobre a política e a economia do país. Criticava abertamente os preços dos combustíveis sem se dar conta que o governo era o maior acionista da Petrobras que ditava os preços no mercado interno. Abria guerra contra as urnas eletrônicas mesmo tendo sido eleito com elas. E, dia após dia, o país amargava o preço da instabilidade política e econômica decorrente do descontrole da língua presidencial.
Mas quem pensou que isso iria acabar com a posse de Lula se enganou redondamente. Como Lula já tinha exercido dois mandatos presidenciais, era de se esperar eu ele usaria a sua experiência para tranquilizar a nação. Afinal, ele havia dito, logo após votar no segundo turno das eleições, que um dos seus sonhos era “recompor a relação de paz entre os seres humanos brasileiros”. Mas o que se vê nesses primeiros três meses de governo são declarações cada vez mais descontroladas e inadequadas do presidente da República.
A começar pela forma como Lula se refere ao presidente do Banco Central, escolhido por ele como alvo principal em razão da manutenção da taxa Selic em 13,75% ao ano. Lula se refere a Roberto Campos Neto como “esse cidadão”, evitando mencionar o seu nome e sem esconder que deseja a sua saída mesmo sabendo que o Banco Central tem autonomia e que o mandato do seu presidente só termina em dezembro de 2024.
Aliás, Lula chama a autonomia do Banco Central de “uma bobagem” sem entender que se trata de uma blindagem criada exatamente para evitar que interferências políticas venham desvirtuar a política monetária que visa a estabilização dos preços e a aproximar a inflação da meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional. Não é preciso lembrar que inflação alta penaliza exatamente os pobres que os programas sociais pretendem beneficiar. E que bancos centrais autônomos existem em muitos respeitados países como os Estados Unidos, Israel, Reino Unido e Suécia, além da União Europeia.
Mas Lula, nesse início de mandato, tem se sentido tão empoderado que chegou a dizer, no último dia 21, que “os livros de economia estão superados” porque, ao invés de classificar como gastos as despesas com saúde, deveriam classificá-las como investimentos. Além do jogo de palavras próprio de um populista, Lula quer é deixar as despesas com os programas sociais fora dos limites do “arcabouço fiscal”, nome pomposo que sua equipe arrumou para tentar substituir o tantas vezes arrombado teto de gastos que freava a gastança do governo. Não é por outra razão que o anúncio do tal “arcabouço” já foi adiado várias vezes para tentar abrigar os interesses do presidente.
Mas os arroubos verbais de Lula não se restringem à área da economia. No último dia 21 ele se superou ao dizer, em entrevista, que só vai ficar bem “quando f... com o Moro”. E, dois dias depois, ao saber da Operação da Polícia Federal que descobriu o plano do PCC, Primeiro Comando da Capital, de realizar atentados contra autoridades públicas, entre as quais Sérgio Moro, afirmou, rindo e debochando, que “é visível que é uma armação do Moro”. Declarações mais infelizes do que essas são impossíveis.
Além da total falta de sensibilidade no trato de um tema tão importante – basta lembrar que o crime organizado vitimou personalidades tão emblemáticas como o juiz Alexandre Martins e a vereadora Marielle Franco – Lula demonstrou, de uma vez por todas, que o seu discurso de campanha, em que dizia que não haveria revanchismo, era só uma fachada pois o sentimento que o inspira de fato é o de rancor e vingança. Sentimento que faz com que ele até ponha sob suspeita o trabalho da Polícia Federal e desminta o discurso antes feito pelo seu Ministro da Justiça.
Por tudo o que se vê, só resta lamentar que os brasileiros tenham, mais uma vez, que conviver – sabe-se lá por quantos anos – com um presidente incapaz de governar a sua própria língua.

José Carlos Corrêa

E jornalista. Atualidades de economia e politica, bem como pautas comportamentais e sociais, ganham analises neste espaco.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Imagem de destaque
Augusto Cury diz que, se eleito presidente, pode acabar com a fome mundial e mediar guerra de Putin e Zelensky: 'Sou especialista em pacificação'
Imagem de destaque
Palantir: por que o crescimento do poder global da empresa de IA causa preocupação?
Sede do STF
Os ministros do STF e os abusos de poder

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados