Dois acontecimentos recentes nos trouxeram de volta cenas de um passado que não deve ser esquecido: a lamentável atuação do governo Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19. Um desses acontecimentos é o início da aplicação no Brasil da quinta dose da vacina, a bivalente, ocorrido na última segunda-feira (27), felizmente em um ambiente bem diferente do passado, com a reduzida quantidade de casos e de vítimas fatais de Covid-19, o que só faz comprovar a eficácia das quatro doses anteriores.
O outro acontecimento recente foi a retirada, por parte da CGU, Controladoria Geral da União, no último dia 17, do sigilo de 100 anos que havia sido colocado pelo Comando do Exército no processo administrativo que envolveu a participação do general Eduardo Pazuello, então ministro da Saúde, em uma manifestação política de apoio a Bolsonaro ocorrida no Rio de Janeiro em 23 de maio de 2021. O sigilo impedia que fossem conhecidas as alegações daqueles que se negaram a fornecer aos brasileiros informações importantes, já que o regulamento da Força veda a participação de militares da ativa em manifestações políticas.
Ao trazer de volta o episódio do sigilo ao noticiário, foi possível aos brasileiros rever as cenas nas quais o general não só participa da motociata como, ao final, sobe no carro de som e discursa ao lado do então presidente. Ou seja, além da conotação nitidamente política da manifestação – ninguém, em sã consciência, desconhecia que o então presidente era pré-candidato à reeleição e que a manifestação era um ato de apoio à sua pretensão –, é estarrecedor verificar que a mais alta autoridade da República e o ministro da Saúde, em plena pandemia da Covid-19, participaram de uma enorme aglomeração contrariando as reiteradas recomendações das autoridades sanitárias mundiais.
Naquela época – maio de 2021 – o Brasil vivia um dos piores períodos da pandemia, com 59 mil óbitos no mês e 207 mil no trimestre março-abril-maio. É inacreditável que, ao meio de uma tragédia dessas proporções, o Brasil tenha presenciado tamanha irresponsabilidade de seus dirigentes. Pois foi com fatos como esse que o Brasil negligenciou o combate à Covid-19 e se alinhou entre os países com maior quantidade de vítimas da pandemia.
Nas imagens, é possível ver o ministro e presidente lado a lado, sorridentes, tal como havia ocorrido sete meses antes em uma live que ficou famosa por Pazzuelo assim justificar o fato de ter voltado atrás após ter anunciado a aquisição de 46 milhões de doses da vacina Coronavac: “É simples assim: um manda e o outro obedece”.
Aliás, as ordens de Bolsonaro cumpridas por Pazuello não se limitaram à errática política de aquisição de vacinas que, diga-se de passagem, só deslanchou depois que o então governador de São Paulo, João Doria, saiu na frente, iniciando a vacinação em massa, escancarando a incompetência do governo federal na imunização da população. Pazuello também se dobrou a Bolsonaro ao facilitar o uso da cloroquina – o que seus dois antecessores no Ministério da Saúde haviam se recusado a fazer –, um medicamento reconhecidamente ineficaz na prevenção e combate à Covid-19.
A passagem do general pelo Ministério da Saúde é um triste retrato do governo passado no combate à pandemia. Retrato, aliás, que foi desnudado com detalhes pela CPI do Senado que acusou o então presidente e pediu um indiciamento de 78 pessoas – entre as quais Pazuello – e listou os crimes cometidos que teriam sido cometidos contra a população: prevaricação, charlatanismo, epidemia com resultado de morte, infração a medidas sanitárias preventivas, emprego irregular de verba pública, incitação ao crime, falsificação de documentos particulares, crime de responsabilidade e crimes contra a humanidade. Infelizmente, todo o trabalho da CPI continua perdido do emaranhado na burocracia brasileira.
Enquanto isso, o general se elegeu deputado federal sendo o segundo mais votado do Rio de Janeiro. Certamente continua sorrindo, tal como aconteceu quando, ao lado do então presidente, discursou no carro de som enquanto milhares de brasileiros morriam vítimas da pandemia.