Seja quem for que analise as perspectivas de futuro do Espírito Santo, sempre elege o turismo como uma das opções estratégicas essenciais a serem adotadas. Se antes já era assim — é só relembrar o sonho e as propostas do saudoso Cacau Monjardim — o turismo passou a ser prioridade como alternativa para o Estado não perder recursos valiosos quando for implantada a reforma tributária.
A reforma, como se sabe, muda o princípio da tributação da origem (produção) para o destino (consumo), o que representará redução de arrecadação em estados, como o Espírito Santo, que produzem mais do que consomem. O turismo passa a ser, assim, a tábua de salvação na medida em que é uma atividade que atrai pessoas e consumo, gerando uma maior arrecadação de tributos a ser utilizada nos investimentos públicos necessários ao desenvolvimento.
Não foi, por isso, uma surpresa que o ES 500 Anos, o plano estratégico do Estado a ser executado nos próximos dez anos — anunciado no início do mês —, tenha apontado o fortalecimento do turismo como um dos mais importantes vetores a serem dinamizados na economia capixaba.
Afinal, temos belezas naturais, praias, lagoas, pesca, aquicultura — a chamada “economia azul” —, montanhas a curta distância, todos esses recursos com potencial de expansão sustentável, uma gastronomia de dar inveja — afinal moqueca é a capixaba, o resto é peixada — e uma rica e histórica cultura.
Temos, assim, espaço de sobra para fazer crescer o turismo de lazer, de entretenimento, religioso, cultural, gastronômico, ecoturismo, de saúde, de aventura, de negócios, náutico, cicloturismo, de bem-estar e muito mais. Sem falar na nossa posição geográfica ímpar, próxima dos grandes centros consumidores do país.
É claro que há muito o que fazer para que esse potencial turístico ganhe uma maior dimensão. Basta comparar o turismo capixaba com o de outras regiões para constatar como o nosso ainda é incipiente. Faltam equipamentos turísticos adequados, opções de entretenimento e transporte, estradas, trânsito e estacionamentos seguros, profissionais qualificados, cidades inteligentes e sustentáveis. E o que é mais relevante: somos ainda um estado que está fora dos roteiros turísticos mais conhecidos e procurados do Brasil.
O ES 500 Anos dá algumas indicações do que é preciso ser feito. Lá consta a importância de serem desenvolvidos roteiros turísticos diversos e sustentáveis, incluindo a promoção de eventos e atividades que valorizem a cultura e o patrimônio locais. A questão da mobilidade urbana é também essencial; basta lembrar como é difícil — para não dizer impossível — transitar e estacionar nas cidades mais visitadas nas nossas montanhas e praias.
Insere-se entre essas preocupações também a questão ambiental, já que nosso litoral é constantemente ameaçado pela poluição das praias, a região serrana por desmatamento ilegal da mata atlântica, e o interior por queimadas nas áreas florestais e degradação dos rios e lagoas.
O ES 500 Anos menciona, corretamente, que o meio ambiente deve ser reconhecido “como ativo essencial à vida, à economia e à identidade capixaba”. E que, entre as oportunidades que se abrem no nosso futuro, está a de “fortalecer setores como cultura, turismo, economia criativa e agricultura familiar por meio da valorização de saberes tradicionais, promovendo a geração de renda e preservação das identidades locais”.
Entre as políticas de atração de investimentos, o ES 500 Anos recomenda, entre outras, “valorizar ativos locais (cultura, turismo, biodiversidade) para atrair negócios alinhados à identidade capixaba” e “promover a marca do Espírito Santo como destino de investimentos sustentáveis, destacando biodiversidade, infraestrutura logística e estabilidade regulatória”.
Entre os setores a potencializar está o de “promover o desenvolvimento do turismo inteligente e sustentável, nas suas diferentes modalidades, que valorize a diversidade capixaba por meio da implementação de rotas turísticas, de iniciativas de marketing, e promoção de mercados emissores, de incentivo a investimentos em infraestrutura para eventos, estrutura hoteleira e de serviços, e de acesso aos pontos turísticos, bem como da qualificação profissional e empresarial”.
Todos sabemos que a construção de um futuro desejável, sustentável e inovador não é simples. O nosso passado recente, por exemplo, é cheio de armadilhas e obstáculos antes inimagináveis como as catástrofes de Mariana e Brumadinho, e o petrolão que exibiu as entranhas apodrecidas da maior estatal brasileira. Soma-se a isso um presente atormentado pelas irracionais megataxas de Donald Trump. Mas é essencial que tenhamos um norte a perseguir porque não há vento favorável para quem não sabe aonde quer chegar.
É, assim, desejável que venhamos a nos engajar na intenção, no esforço e — por que não dizer? — no sonho de construir para um futuro promissor e cheio de boas conquistas para o nosso turismo e, por consequência, para todos os que têm o privilégio de viver nessas terras abençoadas pela Virgem da Penha.