Um boletim epidemiológico especial divulgado pelo Ministério da Saúde no início deste ano de 2023 confirma que a Covid-19 em 2022 teve muito menos impacto do que em 2021. De qualquer forma, a doença ainda está entre nós e quero usar o espaço da crônica de hoje para refletir sobre suas consequências nas crianças.
Desde o início da pandemia, sabíamos que as crianças não eram os alvos principais do vírus, mais perigoso para os idosos, de modo que as crianças foram as últimas a entrar no calendário vacinal dessa nova doença. Infelizmente, criou-se para muitos a falsa noção de que as crianças nada tinham a temer, o que é um absurdo.
De acordo com o boletim especial 146 do Ministério da Saúde, em 2022 ocorreram 7.903 internações hospitalares por Covid-19 em crianças de até um ano de idade, 7.284 em crianças de 1 a 5 anos de idade e 6.091 em crianças/adolescentes de 6 a 19 anos de idade. Os óbitos por Covid-19 foram de 322 crianças de até um ano de idade, 217 de 1 a 5 anos de idade e 336 de 6 a 19 anos de idade.
Esses números são mais de dez vezes maiores que os óbitos por gripe (influenza) nas mesmas faixas etárias. Nem sequer mencionamos aqui a síndrome inflamatória multissistêmica, que pode acometer crianças 2-4 semanas após a Covid-19 e que levou à morte 135 brasileirinhos em 2022.
Os norte-americanos publicaram um estudo semelhante no JAMA (revista cientifica da Associação Médica Americana) com 821 mortes na mesma faixa etária (0-19 anos) de meados de 2021 a meados de 2022. Covid-19 é a quinta causa de morte em crianças e adolescentes nos EUA, depois de acidentes, assaltos e suicídios. Constitui hoje a principal doença infecciosa mortal para os jovens americanos. Na verdade, a Covid-19 mata mais crianças e adolescentes que as principais doenças infecciosas preveníveis por vacina em conjunto. Hepatite A, catapora, rubéola, sarampo e rotavírus em conjunto mataram menos que o novo coronavírus.
Por que isso acontece? Porque ainda hoje inúmeros pais ainda têm mais medo da vacina do que da doença. As vacinas de Covid-19 se tornaram vítimas de polarização política quando são, na verdade, um assunto definido pela ciência. Tornou-se um desafio para os pediatras, com bom senso e paciência, disseminar os poderosos benefícios da vacinação.