Um dos inegáveis avanços dos tempos modernos é a popularização das viagens aéreas, cada vez mais acessíveis. No imaginário dos jovens permanece ainda o glamour da vida de pilotos e comissárias, com permanente conhecimento de novos lugares. Pois é interessante saber que se trata de uma das profissões com maior ocorrência de “burnout” (estresse excessivo no trabalho) na pandemia.
Uma reportagem recente do New York Times relatou o enorme número de comissárias de bordo afastadas nos EUA. A FAA registrou 6.300 incidentes graves com passageiros no ano passado, dos quais 4.500 relacionados à recusa em obedecer ao uso de máscaras. Há relatos de comissárias agredidas, socadas por clientes enraivecidos. São diversas as histórias de comissárias afastadas, decididas a só voltar com o fim da pandemia.
Nessa ótica, os passageiros poderiam se revoltar também contra obrigatoriedade de usar cintos, afinal tolhem a sagrada liberdade de movimentos, ou não? Ou mesmo exercer a liberdade de andar pelo avião a qualquer momento, pousando ou decolando, por que não? Quando um passageiro defende o sagrado direito de não usar máscaras em um ambiente fechado como um avião, está colocando em risco o passageiro ao lado que pode ser um imunossuprimido, e apenas a própria máscara não dê a proteção suficiente.
Aqui na terrinha, multiplicam-se ações de câmaras de vereadores contra o passaporte vacinal. Defendem a sagrada liberdade de escolha de não se vacinar. As vacinas de Covid seguiram o mesmo rigor regulatório de todas as outras e comprovadamente salvam milhões de vidas no mundo inteiro.
Um novo estudo feito por pesquisadores de Harvard estima que 135 mil norte-americanos não vacinados morreram desnecessariamente nos últimos 6 meses. Causa estranheza que a ideologia e a manipulação política envolvam tanta gente em teorias da conspiração sem fundamento. Ao exigir a liberdade de não se vacinar e ter o direito de frequentar qualquer ambiente, o cidadão coloca em risco outros cidadãos vacinados que por deficiência da idade ou imunossupressão não respondam tão bem à vacina e podem adoecer e morrer.
Da mesma forma que fumantes não podem exercer a liberdade de fumar em qualquer recinto. A sociedade demorou mais de 30 anos para vencer o lobby da indústria dos cigarros. Será que precisaremos tempo semelhante para vencer o lobby de interesses anticiência?