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Coronavírus

Um dia daremos risada dessa discussão sobre remédio para Covid-19

Sem a ciência, voltamos à idade das trevas, onde a expectativa de vida da humanidade não passava de três décadas de vida. É enganoso achar que existe um medicamento eficaz em prevenir a doença

Publicado em 19 de Novembro de 2020 às 04:00

Públicado em 

19 nov 2020 às 04:00
Lauro Ferreira Pinto

Colunista

Lauro Ferreira Pinto

lauropintoneto@gmail.com

Pílulas
Todas os medicamentos de sucesso foram desenvolvidos através do rigoroso método científico Crédito: Freepik
“Me passe um remédio doutor, pelo amor de Deus! Como vou melhorar sem nem um remédio?” Os olhos assustados da senhora imploravam ajuda! Afinal, espera-se de um médico que prescreva algum remédio! Em especial para uma doença que tem uma atualização diária de mortes no horário nobre da televisão!
Respiro fundo e explico à assustada paciente que nenhum medicamento precoce funciona na Covid na fase em que se encontra, que o que reduziu mortalidade foi estratificação de risco, corticoide quando há pneumonia grave com comprometimento da oxigenação do sangue que justifique internação em hospital (e não antes disso, pois efeito seria adverso), e duro aprendizado nas condutas de tratamento nas unidades de terapia intensiva.
“Mas, doutor, tanta gente está usando e ficando melhor com essas pílulas, tem um kit salvador!” Claro, se a mortalidade por Covid-19 varia entre 0,2 e 0,3%, qualquer coisa, qualquer pílula, ou mesmo água pura vai funcionar em 99,7% dos pacientes! Nenhum hospital sério tem quaisquer pílulas mágicas em protocolo de tratamento de Covid, embora muitos as adotassem meses atrás, quando não havia estudos suficientes.
Aliás, basta lembrarmos do presidente Trump, defensor de primeira hora da cloroquina, que inclusive dobrou a famosa FDA, talvez a agência regulatória de maior prestígio no mundo, fazendo-a emitir em abril uma autorização emergencial de uso de cloroquina em Covid-19. Pois bem, a mesma FDA revogou essa autorização em 15 de junho (há mais de 4 meses, portanto) à luz de eventos cardíacos e outros efeitos colaterais graves, e de que os supostos benefícios não comprovados contra a Covid não mais compensavam os riscos.
Mesmo Trump, internado com Covid, com insuficiência respiratória, não usou nenhuma dessas pílulas. Foi tratado com corticoide, remdesevir e coquetel de anticorpos monoclonais, sendo que os dois últimos não estão disponíveis no Brasil. Não consta que Trump tenha mudado. Até o momento que redigi esta crônica, ele não aceitava o resultado das eleições, mas parou de falar e divulgar a cloroquina. Até Trump!
Todas as descobertas de sucesso, medicamentos para hipertensão arterial, diabetes, antibióticos, vacinas, foram desenvolvidos através do rigoroso método científico. Sem a ciência, voltamos à idade das trevas, onde a expectativa de vida da humanidade não passava de três décadas de vida. Estamos atravessando um ano muito difícil, mas vamos superá-lo, com auxílio da ciência. É enganoso achar que existe um medicamento eficaz em prevenir a doença. Nada substitui o uso de máscaras e distância de 1,5 metro de pessoas que podem estar transmitindo a doença sem saber. Chegará o dia em que daremos boas risadas dessa discussão estéril que tanto nos cansou.

Lauro Ferreira Pinto

Doutor em Doencas Infecciosas pela Ufes e professor da Emescam. Neste espaco quer refletir sobre saude e qualidade de vida na pandemia.

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