A notícia da semana no mundo empresarial foram os pedidos de recuperação extrajudicial de dois gigantes do mercado, o Grupo Pão de Açúcar, um dos maiores varejistas alimentares da América do Sul, e a Raízen, joint venture entre Cosan e Shell. O GPA busca negociar R$ 4,5 bilhões com credores financeiros. A Raízen está no mesmo caminho, negociando R$ 65 bi com bancos e detentores de títulos externos – é a maior recuperação extrajudicial da história do país.
Infelizmente, não são casos isolados: pedidos de recuperação extrajudicial (RE) bateram recordes no ano passado e no ano anterior e tudo indica que caminham para um novo recorde este ano. A imprensa noticiou dias atrás que os valores renegociados até o momento em 2026 já superam R$ 103 bilhões, a maior parte relativa à Raízen.
A RE é um mecanismo ágil e menos burocrático, criado há 20 anos, que permite a renegociação de dívidas diretamente com credores, fora do Judiciário. No âmbito do Judiciário, as notícias também não são nada animadoras.
O Brasil fechou o ano passado com número recorde de 5,6 mil empresas em recuperação judicial (não mais extrajudicial). Um aumento de 24% em relação ao ano anterior. O que significam todos esses números? Que o setor produtivo está sucumbindo a uma política prolongada de juros altos muito além do limite razoável.
Recente reportagem do Valor Econômico mostrou que grandes e médios grupos empresariais brasileiros estão ampliando a venda de ativos, pressionados pelo aumento do endividamento e pelos juros altos: as dívidas de 319 empresas de capital aberto não financeiras cresceram 22% em um ano, de 2024 para 2025.
A leitura é clara. Temos indicadores de sobra para comprovar que nossos juros estão de fato fora da curva. Na União Europeia, o crédito bancário corporativo custa de 2% a 5% ao ano. Nos Estados Unidos, de 8% a 10%. No Chile e na China: 8,6% e 4,3%, respectivamente.
No Brasil, a Selic está em 15%, quando poderia estar em 11%, como sustentam estudos da Confederação Nacional da Indústria – CNI, que há tempos tem sido crítica em relação aos juros excessivos. Esses 4 pontos fazem muita diferença.
Em suas manifestações públicas, a CNI tem apontado que o ciclo de redução de juros já deveria ter se iniciado há tempos e que já há condições objetivas para isso. A inflação caminha para o centro da meta, que é de 3%. As projeções do próprio Boletim Focus, do BC, indicam que o IPCA deve fechar 2026 com alta de 4%, caindo para 3,8% em 2027 e 3,5% em 2028. O setor produtivo e a sociedade em geral precisam se mobilizar em torno dessa pauta, que se reflete no consumo, no investimento, na produção, na geração de empregos.
A atual política monetária contracionista incentiva o rentismo e inibe a produção, prejudicando o crescimento econômico e o desenvolvimento do país. Tem sido assim há anos, favorecendo somente o setor financeiro. Recente sondagem feita pela CNI mostra que 80% das empresas que tiveram dificuldades para contratar ou renovar crédito, de curto ou médio prazo, culpam os juros altos como principal entrave.
Além disso, cerca de 33% das empresas industriais que renovaram crédito nos seis meses anteriores à pesquisa afirmaram que as condições de financiamento, como taxa de juros, número de parcelas, período de carência e exigência de garantias, estavam piores ou muito piores.
Juros altos têm impacto também no Custo Brasil, uma pauta que abordamos com frequência neste espaço: são as dificuldades estruturais, burocráticas e financeiras que oneram a produção e o consumo interno, minam a competitividade do país e prejudicam a nossa inserção no mercado global. Ao encarecer o custo de capital e dificultar o acesso ao crédito, os juros altos tornam o Custo Brasil ainda mais pesado.
O setor produtivo e a sociedade precisam se mobilizar para essa questão, tão crucial para o desenvolvimento do país. Um debate que precisa inclusive entrar na agenda das eleições de outubro: quem vai defender a produção nacional?