Nos últimos dias, a vida boêmia de Vitória se viu diante da ameaça de fechamento de um dos seus símbolos, o Bar Calipe, em
Jardim da Penha.
Conforme a coluna mostrou, não houve acordo para renovação do aluguel do imóvel onde está instalado o bar, na Rua Eugenílio Ramos, e a proprietária da casa, sem saída, inicialmente anunciou o fechamento do Calipe para o dia 15 de junho, após 38 anos funcionando no bairro da Capital.
Fechar um bar é apagar um pouco a história de uma cidade, de um bairro, de uma comunidade. E o Calipe tem história, que começou anos antes de se instalar no atual endereço em Jardim da Penha, em 1986.
Na realidade, a origem do bar remonta ao início da década de 1980, como conta, emocionado, Luiz Felipe Lepore, filho de Paulo Roberto Goulart Lepore, o desbravador do Calipe. Luiz Felipe enviou seu relato à coluna, de forma espontânea, e autorizou a publicação desta simples, mas emocionante história.
Veja então como foi a “abrideira” do Calipe. E que a “saideira” não seja servida tão cedo.
“Quando eu nasci, meu pai era representante de remédios e tinha como hobby cozinhar, o que fazia muito bem. Ele era um exímio comunicador e fazia amizades por onde passava.
Por volta do ano de 1980 ele criou o Bar Iate, que levava esse nome por ficar dentro das instalações do Posto Iate. Nesse bar tinha um cozinheiro chamado Nei e junto dele a dona Luzia, que está no Calipe até hoje.
Junto com meu pai criaram o cardápio e as receitas que, provavelmente, compõem a maioria dos pratos do então Calipe. O Bar Iate ficou muito famoso pelos pratos e talvez principalmente pelos caldos.
Vale dizer que também era referência na cidade o Praia dos Caldos, cujos proprietários eram muito amigos do meu pai. Tanto no Iate quanto no Calipe meu pai teve ajuda de três dos seus irmãos vindos do Rio de Janeiro.
O Calipe foi fundado por Paulo Roberto Goulart Lepore, meu pai, por volta dos anos de 1982/83, neste mesmo lugar que é hoje. Recebe esse nome, que é um amálgama formado pela junção das sílabas "Ca" de Carolina (Ana Carolina, minha irmã) e "Lipe" de Felipe (Luiz Felipe, eu).
Apesar da paixão pela cozinha e pelo relacionamento com os clientes, faltou uma boa administração e, por volta dos anos de 1999/2000, viu a necessidade de passar a administração do Calipe. Carlos Alemão, na época gerente da Padaria Pão Gostoso e grande amigo nosso, então assumiu o restaurante.
Aqui eu, em nome do meu pai e da minha família, quero homenagear e agradecer o Alemão por toda competência que levou o restaurante. Um verdadeiro guerreiro que com seu despojamento, simpatia, alegria, coragem, força e tantos outros bons adjetivos que o qualificavam, manteve viva a memória do restaurante, hoje conduzido também com coragem e grande determinação pela Carla, filha do Alemão.
Meu pai hoje está em um estágio bem avançado de Alzheimer e não pode acompanhar o que tem acontecido, mas, assim como nós, certamente apoiaria e desejaria muito sucesso na continuação do Calipe, que leva boa parte da história da minha família.”