Futuro bispo de Cachoeiro denuncia o horror da guerra onde vive, na África
Leonel Ximenes
Futuro bispo de Cachoeiro denuncia o horror da guerra onde vive, na África
Dom Luiz Fernando Lisboa, que toma posse dia 20 de março, relata ataques à Igreja em Pemba, onde comanda a diocese local, em Moçambique
Publicado em 01 de Março de 2021 às 14:48
Públicado em
01 mar 2021 às 14:48
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
Fiel mostra a cabeça de Cristo de uma imagem destruída por terroristas numa igreja da Diocese de PembaCrédito: Reprodução de vídeo
O futuro bispo de Cachoeiro de Itapemirim, d. Luiz Fernando Lisboa, denunciou os horrores da guerra na região de Moçambique onde vive, na África. Bispo de Pemba, d. Luiz, num vídeo divulgado para o mundo todo pela entidade internacional Ajuda à Igreja Que Sofre, lembrou que o conflito já dura três anos e deixou pelo menos 2 mil mortos.
“Começou com um ataque a um posto policial, depois às aldeias distantes, depois às aldeias maiores até que chegou ao centro das cidades. Quatro cidades foram completamente atacadas e esvaziadas. Além dos mais de 2 mil mortos, já temos mais de 500 mil deslocados”, denuncia o bispo.
Segundo o prelado, que está há sete anos no comando da Diocese de Pemba, as vítimas da guerra civil nessa região de Moçambique são muito carentes. “Essas pessoas deslocadas precisam de tudo, de alimentos, de roupas, de medicamentos, de panelas, de atenção, de um lugar pra morar, de tudo”, enumera.
Nem as instalações da Igreja Católica são poupadas pelos guerrilheiros moçambicanos. No vídeo, d. Luiz Lisboa revela que acabara de saber de mais um ataque: “Acabamos de ter notícia, há poucos minutos, da destruição de uma das nossas missões, a segunda missão mais importante da nossa diocese”, lamentou. “Essa missão tinha quase 100 anos.”
Nesse ataque, descreve o bispo, a destruição foi impiedosa: “Destruíram a igreja, a casa dos padres, a casa das irmãs, a rádio comunitária da igreja, o ambulatório. É uma história que fica pra trás. Muitos missionários passaram por ali, muitos missionários deixaram os ossos ali, foram enterrados ali”.
Antes do ataque, muitas pessoas fugiram do local e foram ajudadas pela Diocese de Pemba, inclusive com dinheiro. Mas, segundo o prelado católico, os cristãos não são o principal alvo dos ataques dos terroristas.
Dom Fernando Lisboa no vídeo em que denuncia os horrores da guerra civil na região da sua diocese, em MoçambiqueCrédito: Reprodução de vídeo
“Já foram queimadas muitas igrejas e capelas, mas também foram queimadas muitas mesquitas, assim como foram mortos catequistas e animadores de comunidades. Assim como foram presas duas religiosas, também foi morto um xeque muçulmano e outras lideranças. Então não é uma guerra contra os cristãos”, explica o bispo, destacando que as diferentes religiões na região convivem bem e que essa guerra não tem caráter religioso.
Os ataques são mais intensos em Cabo Delgado, região norte de Moçambique. Segundo o jornal “Diário de Notícias”, de Lisboa, a guerra em Cabo Delgado começou com operações violentas e de pequena escala, no distrito de Mocímboa da Praia, e intensificou-se a partir de 2019, com a chegada de dezenas de combatentes jihadistas estrangeiros e a entrada de armamento mais sofisticado, tendo-se estendido a metade dos distritos, no nordeste.
Dos cerca de 2,6 milhões de habitantes da província, 20% são hoje refugiados, exercendo pressão sobre as instituições existentes e sobre a capital, Pemba.
O futuro bispo cachoeirense, de 65 anos, por fim faz um apelo: “Nós não podemos ser indiferentes ao sofrimento, à dor e à morte de tantos irmãos e irmãs nossos. A Igreja nunca parou de falar, a Igreja é comprometida com a verdade, porque nós seguimos Jesus, que disse ‘eu sou o caminho, a verdade e a vida'. Nós não temos medo porque estamos falando a verdade”, disse o religioso.
Dom Luiz Lisboa tomará posse como bispo de Cachoeiro no dia 20 de março, às 9h, na Catedral de São Pedro. Por causa da pandemia do novo coronavírus, a cerimônia terá número restrito de presentes, mas poderá ser acompanhada pela Rádio Diocesana e pelas redes sociais da diocese cachoeirense.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.