Conseguir uma corrida com
motoristas de aplicativo, após as 22h, se transformou numa maratona para passageiros que saem do
Aeroporto de Vitória. A razão é o cancelamento sumário, por parte deles, de trechos que consideram ruins, motivado especialmente pela disparada do preço dos combustíveis, insumo primário para a atividade.
Na semana passada, um morador de
Jardim Camburi ficou mais de uma hora esperando por uma corrida. Esse passageiro fez o pedido pela corrida ainda dentro do avião, mas houve tanta demora que até o próprio app cancelava a corrida. E o cliente ainda tinha de ficar de olho, porque poderia haver cobrança a partir de cinco minutos de operação.
Diante de inúmeras tentativas em diferentes aplicativos, o passageiro só conseguiu um veículo por meio de um serviço de aplicativo voltado para um público mais seleto e que estava com um preço mais competitivo, consideradas as circunstâncias.
Em outra situação, um casal que tinha como destino a Praia de Santa Helena, também na Capital, fez tentativas durante meia hora para conseguir uma corrida com motorista de aplicativo. Toda vez que o pedido era aceito, havia a pergunta: “Para onde é o destino?”. E o casal respondia: “Enseada do Suá”. Logo que havia essa resposta, o pedido era imediatamente cancelado.
Com o passar da hora, após a meia-noite, a solução foi o táxi para muitos passageiros que chegaram no mesmo voo. Na região, os taxistas não têm trabalhado com o taxímetro ligado, mas sim com o valor fechado. Para esse casal, a tarifa ficou em R$ 30.
Está cada vez mais difícil andar de carro, seja com os fortes que ainda têm seus veículos, seja com serviços oferecidos na Grande Vitória.
O presidente da Associação dos Motoristas de Aplicativo do Espírito Santo (Amapes), Luiz Fernando Müller, confirma a situação relatada pelos passageiros que tentam pegar um carro de aplicativo, à noite, no aeroporto. Segundo ele, a recusa de corridas é decorrente das dificuldades financeiras enfrentadas pelos profissionais.
Müller cita, por exemplo, a alta contínua do preço dos combustíveis e a baixa remuneração pelas viagens de aplicativos, como fatores agravantes da crise. “Desde 2016 a tarifa não é aumentada. Pelo contrário, ainda estão sendo reduzidas”, lamenta.
No último sábado (28), segundo ele, das 14 viagens que fez com seu carro de aplicativo, em 13 os passageiros relataram que tiveram dificuldade de conseguir um veículo. “Há
viagens curtas em que nossa remuneração é fixa, de R$ 5,02. Este valor não dá mais para pagar sequer um litro de gasolina. Estamos pagando para trabalhar, estou subsidiando o transporte”, reclama.
Além do preço exorbitante dos combustíveis e da baixa remuneração paga pelas empresas aos profissionais do volante, Müller aponta a pandemia como um fator a mais que contribuiu para a situação de insolvência, haja vista a diminuição do número de clientes que usam os carros de aplicativos.
Ele estima que pelo menos 2 mil dos 19 mil motoristas de aplicativo no
Espírito Santo desistiram da profissão por causa da crise. E poderia ser pior, segundo o presidente da Amapes: “Muitos que trabalham para reforçar o orçamento desistiram da atividade. Ficaram os que estão desempregados, os que precisam de uma renda para cumprir seus compromissos”, constata. “Mas a população não pode ser prejudicada”, reconhece Müller.