Segurança pública no ES: coronel, é preciso gritar de novo: "Basta!"
Leonel Ximenes
Segurança pública no ES: coronel, é preciso gritar de novo: "Basta!"
Novo titular da Sesp, que se destacou na defesa da missão constitucional da Polícia Militar durante a greve de 2017, tem todas as condições de reverter a onda de violência no Estado
Publicado em 07 de Abril de 2020 às 14:30
Públicado em
07 abr 2020 às 14:30
Colunista
Leonel Ximenes
lximenes@redegazeta.com.br
O então tenente-coronel Ramalho orienta seus comandados durante a greve da PM em 2017Crédito: Carlos Alberto Silva
Comecemos o texto falando desta foto. É de fevereiro de 2017. O clique do atento repórter-fotográfico Carlos Alberto Silva captou o exato momento em que o então tenente-coronel Alexandre Ramalho, que comandava o Primeiro Batalhão da PM (Vitória), dava uma lição de honra militar aos poucos PMs que se apresentavam, na Rodoviária de Vitória, para retomar o policiamento ostensivo, paralisado por uma greve ilegal e insana da corporação.
“Vivemos um momento sem precedência. Agora, com a apresentação de todos vocês, vamos conseguir separar o joio do trigo e reverter essa situação humilhante que a corporação vive”, pregou. O comandante estava se referindo aos bons policiais que, movidos pelo pundonor militar (termo muito usado no meio, o mesmo que “honra”), não concordavam em abandonar sua missão constitucional de proteger a sociedade.
A imagem do grito do tenente-coronel, estampada na foto publicada na primeira página de A Gazeta, ficou para a história. E passou à sociedade o seguinte recado: é preciso agir; é preciso sair da inércia; é preciso mudar para vencer.
Agora, de terno e gravata, o novo secretário estadual da Segurança não precisa dar mais esse grito em público, para a sua tropa. Antes de tudo, é preciso que ele ouça. Que tenha ouvidos atentos para sentir o grito de clamor de uma população amedrontada pela violência e para conseguir mobilizar os agentes de segurança do Estado. É preciso que seja retomado o caminho da paz. Quem conhece o Ramalhão, como os mais próximos o tratam, sabe que a missão é difícil, mas que ele tem condições de cumpri-la. Vejamos o porquê.
A TRAJETÓRIA DO CORONEL RAMALHO
O coronel Ramalho teve parte da sua formação no extinto Batalhão de Missões Especiais (hoje Companhia Independente de Missões Especiais) e uma de suas especialidades é a negociação. Quando ainda capitão, teve como missão, por exemplo, dialogar com assaltantes de bancos em situações de alta tensão e risco no Centro de Vitória. Até hoje, a Cimesp só é chamada para casos que se configuram emergência, quando algo sai do controle das forças convencionais da Polícia Militar.
Por mais que haja questionamentos ao seu trabalho, como acontece com qualquer gestor ou profissional, suas ideias deixaram um legado. Na Polícia Militar, entregou picapes com mantas balísticas para auxiliar no patrulhamento em áreas de maior possibilidade de conflito com criminosos.
Nas Prefeituras de Vila Velha e de Viana, na condição de responsável pela pasta da Segurança, contribuiu para a formação das respectivas Guardas Municipais. Notadamente, a Guarda canela-verde, que teve papel reconhecido pela sociedade pela sua atuação firme e corajosa durante a greve da PM. Muitos atribuem essa atuação ao legado deixado por Ramalho na corporação.
Experiente, o coronel é conhecedor da realidade da segurança metropolitana, principal região de bolsão populacional e violência no Espírito Santo. Conteve com sua liderança, antes mesmo de ser o comandante-geral da PM, o complicado Comando de Polícia Ostensiva Metropolitano, a panela de pressão que serve para testar os gestores e alçá-los a voos maiores - se forem bem-sucedidos, é claro.
Não há, pelo menos aparentemente, nas demais instituições que compõem o núcleo da segurança pública, como os Bombeiros e a Polícia Civil, resistências à chegada do novo secretário. A tônica esperada é a da manutenção da unidade de planejamento e ação
Unidade, aliás, que será fundamental para que os indicadores de violência, principalmente os homicídios, voltem a cair no Estado e atinjam os patamares registrados principalmente no primeiro semestre do ano passado, quando foi alcançado o menor número de assassinatos da série histórica.
A responsabilidade pela Segurança Pública não é só de Ramalho, claro, mas de todos que compõem a gestão Casagrande, incluindo as Secretarias de Planejamento e de Justiça. A semente da redução da violência foi plantada em 2009, reforçada com bons exemplos a partir de 2011, na primeira passagem do socialista pelo Palácio Anchieta, e paulatinamente seguida nos demais anos, com exceção do fatídico 2017.
O Espírito Santo merece solidificar suas políticas de segurança e de ambiente organizado com valorização das instituições, trabalho em conjunto de todos os órgãos e ações que permitam não só patrulhamento e investigação, mas educação e distribuição de renda. O patamar acima de mil mortes por ano nos envergonha, é uma guerra não declarada. É preciso gritar de novo, secretário: “Basta!”.
Iniciou sua historia em A Gazeta em 1996, como redator de Esporte e de Cidades. De la para ca, acumula passagens pelas editorias de Policia, Politica, Economia e, como editor, por Esportes e Brasil & Mundo. Tambem atuou no Caderno Dois e nos Cadernos Especiais e editou o especial dos 80 anos de A Gazeta. Desde 2010 e colunista. E formado em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo.