7 de Setembro no ES tem ares de showmício e distribuição de Bíblias
Eleições 2022
7 de Setembro no ES tem ares de showmício e distribuição de Bíblias
Bolsonaro e aliados mostram a força de eleitores já consolidados e pressionam Judiciário a menos de um mês da eleição. Em Vitória, candidato ao governo foi incensado
Publicado em 07 de Setembro de 2022 às 20:19
Públicado em
07 set 2022 às 20:19
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O ato alusivo ao bicentenário da Independência do Brasil realizado na Praça do Papa, em Vitória, nesta quarta-feira (7), até contou com menções à data, mas o protagonismo foi de outro marco no calendário, as eleições de 2022.
Pedidos de voto para garantir a reeleição do presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), deram o tom do evento, organizado por apoiadores do chefe do Executivo federal. O candidato ao governo do Espírito Santo Carlos Manato, correligionário do presidente, também foi incensado.
Aliás, Manato subiu no trio elétrico postado próximo à Cruz do Papa. Ao lado de Xirú do Sul, ouviu o artista cantar uma música pró-Bolsonaro e pedir votos para o presidente e para o próprio Manato. "No primeiro turno, Manato!", bradou Xirú.
O candidato ao Palácio Anchieta, digamos, balançou ao som da canção e fez, com as mãos, o gesto que simboliza o número de urna de Bolsonaro e o dele mesmo.
Além de Xirú, que fez uma breve participação, a banda Full Time animou o ato durante todo o tempo. Tocou sucessos de Legião Urbana, Los Hermanos, Cazuza e Ira!, entre outros.
Ato político em local com artistas para entreter o público pode caracterizar showmício.
Oradores que controlavam o microfone sobre o trio foram bem diretos: "Manato 22, eu tô olhando dentro dos olhos de vocês, é a esperança do estado do Espírito Santo. Contra a ideologia de gênero, contra o aborto. Favor do armamento, favor da família (sic), do patriotismo e da liberdade. Manato! Manato!".
Considerando os votos válidos – excluídos brancos, nulos e indecisos –, se a eleição fosse realizada no dia da realização do levantamento, Casagrande venceria no primeiro turno, com 62%. Manato teria 21%.
O candidato do PL atravessou a Terceira Ponte, entre Vila Velha e Vitória, nesta quarta, junto com os manifestantes. Ao chegar à praça do pedágio, usou o microfone para falar de cima de um trio:
"Vamos mudar o nosso estado. Nosso lema vai ser Tramontina, vamos cortar ele no meio, não vamos deixar esses vagabundo ... A nossa luta vai ser a luta de Davi contra Golias, esse gigante da corrupção que acabou com o nosso estado. Ele quer acabar com nossas crianças. Não vai ter ideologia de gênero nas escolas do Espírito Santo. Não vai ter sexualização das criancinhas nas escolas".
Voltando a falar sobre o Espírito Santo, um homem distribuiu Bíblias ao público na Praça do Papa. Ele disse, ao microfone, que costuma fazer isso em atos como o desta quarta.
CANDIDATOS
Apesar de Manato não ter discursado no principal trio, em Vitória, não houve impedimento para candidatos a deputado. Um deles, filiado ao PL e que quer ser deputado federal, usou o microfone para se apresentar ao público.
Postulantes à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa tiveram os nomes mencionados e foram elogiados em diversos momentos pelos oradores.
Alguns aproveitaram para distribuir material de campanha entre o público. Bandeiras de candidatos também estavam presentes de forma ostensiva.
"Aqui não tem nada a ver com política", disse um dos oradores, apesar disso.
O governador Casagrande foi um dos principais alvos de críticas, ao lado da senadora Rose de Freitas (MDB). Os dois tentam a reeleição.
Discursos contra o Supremo Tribunal Federal e o Judiciário como um todo também foram frequentes, seguindo a estratégia do presidente da República.
"Junta para a foto para mostrar para os homens de toga (...) o ato antidemocrático feito pelo povo, de onde emana todo o poder", exortou um dos locutores, no trio, ao público.
Também houve menção a "tiranos de toga".
QUEM PAGOU?
O aluguel trio elétrico da Praça do Papa, de acordo com o que os próprios organizadores falaram ao microfone, custou R$ 20 mil. O valor vai ser pago pelos próprios apoiadores de Bolsonaro, ainda segundo eles mesmos.
Também houve custo com os banheiros químicos instalados.
Bonés com dizeres como "Bolsonaro 22" e "Globolixo" eram vendidos a R$ 50 para ajudar com o valor. Doações em dinheiro eram uma alternativa.
"Os patrocinadores desse ato são vocês. Aqui não tem pão com mortadela", disse um dos oradores, ironizando a forma como, segundo eles, atos organizados pela esquerda são "remunerados".
Ao menos outros dois trios partiram da Praia da Costa, em Vila Velha, até a praça. Manato foi transportado nesses veículos.
Manifestação em apoio ao presidente Jair Bolsonaro no 7 de setembro na Terceira Ponte, entre Vila Velha e VitóriaCrédito: Fernando Madeira
O principal ato do Sete de Setembro/pró-Bolsonaro foi realizado em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Na Grande Vitória, houve a participação de caminhoneiros, que partiram de Viana e Cariacica e seguiram para a Capital.
Vários caminhões estavam plotados com os nomes de duas empresas ligadas ao agronegócio.
FORÇA
Os atos do Sete de Setembro mostram a força de Bolsonaro, mas apenas entre eleitores já consolidados, e pressiona o Judiciário, único bastião que apara os Poderes do Executivo. O Legislativo, em boa medida, foi cooptado por meio do orçamento secreto e do comando de ministérios entregues ao Centrão.
Não é segredo que o presidente da República tem um apoio relevante, afinal, ocupa o segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto.
Muitos apoiadores dele desdenham dos levantamentos, circunscritos a suas próprias bolhas, como por vezes fazem também os eleitores do ex-presidente Lula (PT), arquirrival de Bolsonaro.
O público na Praça do Papa e na Terceira Ponte durante as manifestações desta quarta na Grande Vitória foi de 70 mil pessoas, de acordo com a Secretaria Estadual de Segurança Pública.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.