A ligação entre major alvo da PF no ES e argentino estrategista de Milei
Operação Tempus Veritatis
A ligação entre major alvo da PF no ES e argentino estrategista de Milei
Fernando Cerimedo protagonizou live com mentiras sobre o sistema eleitoral brasileiro. De acordo com investigação, estratégia surgiu de um núcleo de desinformação formado, entre outros, pelo tenente-coronel Mauro Cid e pelo major, que é de Colatina
Publicado em 08 de Fevereiro de 2024 às 13:00
Públicado em
08 fev 2024 às 13:00
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Fernando CerimedoCrédito: Reprodução/YouTube
No dia 4 de novembro de 2022, pouco após o segundo turno das eleições de 2022, apoiadores do então presidente da República, Jair Bolsonaro (PL), lamentavam a derrota, por margem apertada, para Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Muitos, inconformados com o resultado, alimentavam teorias da conspiração para "provar" que houve fraude nas urnas. A estratégia não foi inédita, uma cópia do que se passou nos Estados Unidos após Donald Trump não ser reeleito.
E eis que mais uma ajuda internacional surgiu. Naquele dia 4, o argentino Fernando Cerimedo protagonizou uma live, transmissão ao vivo nas redes sociais, com informações falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro. Era, supostamente, um "dossiê" que apontava fragilidades nas urnas e na apuração dos votos. Tudo prontamente desmentido por técnicos e pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O vídeo, porém, foi tratado como verdade e amplamente divulgado por apoiadores de Bolsonaro.
De acordo com a representação da PF, citada em decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (PF), Ângelo Martins Denicoli, o major, foi quem forneceu ao grupo o contato de Fernando Cerimedo.
Os argumentos divulgados pelo argentino também foram gestados, ainda segundo a investigação, pelo "núcleo de desinformação e ataques ao sistema eleitoral" montado por aliados de Bolsonaro, no Brasil.
Eles também se encarregaram, de acordo com a PF, de espalhar o conteúdo da live, usando "milícias digitais".
"O episódio envolvendo Fernando Cerimedo, com divulgação em uma live de notícias fraudulentas sobre uma suposta investigação sobre as eleições brasileiras e constatação de disparidades entre a distribuição de votos nas urnas eletrônicas mais novas e mais antigas (que implicariam anomalia favorável ao candidato de número 13 nas urnas fabricadas antes do ano de 2020) é exemplo de tal estratégia ilícita e antidemocrática", escreveu Moraes, na decisão.
"Segundo a autoridade policial, a investigação ainda sinalizou a existência de relação do Major da reserva Ângelo Marins Denicoli com Fernando Cerimedo, no sentido de disseminar desinformação sobre o processo eleitoral brasileiro (...) A Polícia Federal aponta a conversa entre Paulo Renato de Oliveira Figueiredo Filho e Mauro Cid, em que o primeiro solicita o contato do Cerimedo, buscado por Mauro Cid, com êxito, junto a Ângelo Denicoli", diz a decisão de Moraes.
"Além disso, publicações na rede social Twitter, realizadas pelo usuário 'Marcelo Oliveira – @Capyvara', demonstraram, segundo a PF, 'que uma pasta no serviço de nuvem Google Drive, criado por Fernando Cerimedo, teria sido alimentado com arquivos de autoria do major Angelo Martins Denicoli. Os arquivos estariam relacionados a disseminação de informações falsas sobre as urnas eletrônicas', a evidenciar o elo entre o conteúdo abordado na live realizada pelo argentino e o grupo ora investigado."
A live de Cerimedo, apesar das mentiras, ou, talvez, justamente por isso, fez sucesso e foi bastante compartilhada no Brasil.
ESTRATEGISTA DE MILEI
Na Argentina, ele também se destacou. Cerimedo é empresário e, em 2023, virou estrategista de Javier Milei, então candidato à presidência. Milei venceu o pleito.
Em entrevista ao jornal La Nación, Fernando Cerimedo afirmou que faz uso de “fazendas de trolls (detratores)” para engajar o seu candidato e patrocinar campanhas negativas contra os adversários. O candidato tem forte presença no TikTok e no YouTube.
“Não investimos dinheiro da campanha nas redes sociais pela razão de que não é necessário. Essa é a realidade”, disse Cerimedo em entrevista ao programa Sólo Una Vuelta Más. “Qualquer coisa que você faça sem essas contas (trolls) não vai ter engajamento”, completou, como mostrou o Estadão.
BUSCA E APREENSÃO
No Brasil, a Operação Tempus Veritatis colocou militares de alta patente no centro das investigações sobre "tentativa de golpe de Estado e de abolição violenta do Estado democrático de direito".
O major Denicoli, apesar de estar na reserva, ou seja, aposentado, foi alvo de mandados expedidos pelo STF devido à proximidade com outros investigados e a atuação descrita pela PF.
Ele não foi preso. A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados ao militar. O objetivo foi encontrar "armas, munições, computadores, tablets, celulares e outros dispositivos eletrônicos".
O major também está proibido de sair do país, deve entregar o passaporte, e não pode manter contato com outros investigados na operação.
Arquivos & Anexos
Decisão do ministro Alexandre de Moraes na Operação Tempus Veritatis
Leia a íntegra da decisão, que cita a investigação da Polícia Federal e a manifestação da Procuradoria-Geral da República
A coluna tentou contato com Ângelo Martins Denicoli, mas o celular dele está desligado ou fora de área — deve ter sido apreendido. Também tentamos falar por meio de um telefone fixo relacionado a uma empresa de Colatina da qual ele é ou foi sócio, mas a ligação não completou.
A coluna está à disposição para ouvir o militar ou a defesa dele.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.