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"Eu vim de graça?"

Bolsonarista do ES oferece viagem de graça e R$ 100 para quem quiser ir ao 7 de Setembro no Rio

"É uma cortesia de um empresário, que botou um ônibus à disposição e faz uma ajuda de custo de R$ 100 por pessoa"

Publicado em 06 de Setembro de 2022 às 02:10

Públicado em 

06 set 2022 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Bolsonarista oferece R$ 100 para participantes de ato do 7 de Setembro
Bolsonarista oferece R$ 100 para participantes de ato do 7 de Setembro Crédito: Reprodução
Às 23h40 do último sábado (3), o corretor de imóveis Hércules Emmerich enviou ao grupo "Corretores Unidos ES" a "última chamada": o convite era para ir ao Rio de Janeiro, no ato alusivo ao 7 de Setembro. "Ônibus confortável 0800 + ajuda de custo de R$ 100", ofereceu.
E encaminhou um áudio: "Cidadania pura. O ônibus sai daqui dia 6 à noite, amanhece no Rio, a galera fica liberada, tem uma ajuda de custo de R$ 100, patrocinada por um empresário. Participa das comemorações do dia 7 de Setembro, aí o nosso presidente (Jair Bolsonaro) vai fazer uma motociata e dar um pronunciamento. Depois do pronunciamento o ônibus vai embora".
Tive acesso às mensagens. Liguei, no domingo (4), para o número que apareceu no grupo, vinculado ao nome Hércules Emmerich. Passei-me por uma pessoa interessada em embarcar no ônibus rumo ao Rio.
Ele confirmou chamar-se Hércules. Explicou que a viagem "é uma cortesia de um empresário, que botou um ônibus à disposição e faz uma ajuda de custo de R$ 100 por pessoa para ir participar dos eventos de 7 de Setembro no Rio de Janeiro, Copacabana".
Para receber a "cortesia", entretanto, há uma condição:
"Agora, tem que ser Bolsonaro. Se não for Bolsonaro não adianta nem... Nós fazemos um checklist na hora lá, já passamos um medidor e a gente já sabe quem é petista e quem é Bolsonaro", afirmou.
Fiquei curiosa a respeito desse "medidor", mas achei que seria suspeito perguntar a respeito.

O DIÁLOGO:

- Boa tarde. Recebi uma mensagem falando que tem vaga, não sei se tem vaga ainda, para ir ao Rio no 7 de Setembro. A mensagem tinha o contato do senhor. Gostaria de saber como é que faz...

Hércules Emmerich: Manda um WhatsApp pra mim que passo informações, vou ver se tem vaga ainda. Hoje (domingo) data limite. Me manda um WhatsApp que que eu respondo para você.

- Só me adianta algumas coisas que vou falar com alguns amigos e já falo a quantidade de pessoas certa.

Hércules Emmerich: É uma cortesia de um empresário, que botou um ônibus à disposição e faz uma ajuda de custo de R$ 100 por pessoa para ir participar dos eventos de 7 de Setembro no Rio de Janeiro, Copacabana.

- Mas, como assim, a gente que paga R$ 100?

Hércules Emmerich: Não. Cortesia. A primeira palavra que eu usei foi cortesia. Então tudo isso é 0800. Ele ainda dá 100 reais para ajuda de custo de comida das pessoas, entendeu?

Agora, tem que ser Bolsonaro. Se não for Bolsonaro não adianta nem... Nós fazemos um checklist na hora lá, já passamos um medidor e a gente já sabe quem é petista e quem é Bolsonaro.

- Aí na hora de entrar no ônibus ganha esse dinheiro?

Hércules Emmerich: Os R$ 100. Exatamente. Isso aí.

- Em dinheiro mesmo, né?

 Hércules Emmerich: Em dinheiro, com certeza.

- Sai que horas e volta que horas?

Hércules Emmerich: Onde você viu essa informação?

- Eu recebi a mensagem num grupo. Assim, encaminhada.

Hércules Emmerich: Isso, eu encaminhei.

- Hércules, né, o nome do senhor?

Hércules Emmerich: Isso, Hércules.

O ônibus sai 11 horas (23 horas) de Jardim América, que é a sede da empresa, e vai na Satélite, que é outra empresa do grupo, pegar mais pessoas e depois vai direito para o Rio. Para em Campos e depois amanhece no Rio de Janeiro.

- É bate e volta, né?

Hércules Emmerich: Terminou o evento lá vem embora.

- O ônibus é grande ou é um micro-ônibus?

Hércules Emmerich: Não, é um ônibus de 44 lugares, mas tem muita gente já. Tenho até que ver se tem vaga.

Como é seu nome?

- Helena (eu inventei esse nome na hora).

Hércules Emmerich: Entendeu, Helena?

- Quem tá organizando, só para eu saber?

Hércules Emmerich: Sou eu. Eu tô organizando. O dono desse grupo é meu primo.

- Hummmm

Hércules Emmerich: Entendeu? É patriota.

OUÇA O ÁUDIO:
Hércules Emmerich oferece viagem de graça e R$ 100 para ir ao 7 de Setembro no Rio
No Facebook, Hércules Emmerich publicou uma foto, uma vez usada no perfil, em que faz gesto de arma com a mão, imagem associada ao presidente da República, Jair Bolsonaro. No Linkedin, ele se identifica como consultor imobiliário autônomo.
Na conversa ao telefone, ele mencionou a empresa Satélite. Como transcrito acima, o ônibus de "cortesia" vai partir da sede de outra empresa, localizada em Jardim América, Cariacica. No bairro, está a Viação Planeta, que é do mesmo grupo da Satélite.
O corretor de imóveis também diz ser primo do dono do grupo de transporte de passageiros. Um amigo e um familiar de Emmerich confirmaram à coluna que ele tem parentesco com Floriano Carneiro Mendonça, sócio-administrador da Planeta e da Satélite. Mas é primo distante, não primo irmão.
Não consegui contato com Mendonça nesta segunda-feira. A coluna está à disposição.
A rigor, Emmerich não disse que é ele o empresário patrocinador da "cortesia", apenas deixou isso no ar.
Em atos públicos bolsonaristas, como é o contorno dado aos festejos do 7 de Setembro no Rio, são sempre ouvidos gritos de "eu vim de graça", numa provocação a movimentos de esquerda, acusados pelos conservadores de fornecer "pão com mortadela" a quem comparece às convocações.
Hércules Emmerich em foto publicada no Facebook
Hércules Emmerick em foto publicada no Facebook Crédito: Reprodução/Facebook Hércules Emmerich
"A EMPRESA NÃO FAZ DOAÇÃO"
Falei com o assessor jurídico do grupo, Hélio Carlos da Cruz Filho. Ele negou que a viagem para o Rio seja cortesia do empresário sócio da viação de transporte: "Isso é o pessoal lá de Cariacica mesmo que freta. A empresa não faz doação de fretamento de viagem".
Ele disse que qualquer pessoa ou empresa pode fretar ônibus da viação para deslocamentos particulares.
Telefonei novamente para Hércules Emmerich nesta segunda-feira (5). Assim que me identifiquei como jornalista de A Gazeta, mesmo antes de dizer o assunto sobre o qual eu gostaria de falar, a ligação caiu, ou foi encerrada. Em novas tentativas, o telefone seguiu desligado ou fora de área.
O SETE DE SETEMBRO
O presidente Jair Bolsonaro e aliados dele têm convocado apoiadores a participar de atos em homenagem à Independência do Brasil. Este ano marca o bicentenário desse marco histórico. Como pano de fundo, no entanto, está um discurso que beira ao golpismo. "É agora ou nunca", dizem outdoors instalados em Brasília, onde vai ser realizado o desfile oficial em alusão à data.
Bolsonaro, por sua vez, vai a Copacabana, num movimento incomum.
Em 2021, atos bolsonaristas no feriado da Independência foram marcados por ataques às instituições, como o Supremo Tribunal Federal.
Desta vez é diferente. É ano de eleição. O evento tem, assim, direta ou indiretamente, contornos eleitorais. O presidente tenta mais um mandato e está em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, atrás do ex-presidente Lula (PT).
A estratégia parece ser demonstrar força. Ou seja, quanto mais gente nas ruas, melhor.
Bolsonaro pode até usar o comparecimento dos apoiadores para contrapor o resulado das pesquisas. Os simpatizantes do presidente são mais ruidosos, não necessariamente mais numerosos.
NO ESPÍRITO SANTO
No Espírito Santo também vai haver manifestação. Um carro de som percorreu as ruas de bairros de Vitória nesta segunda chamando para concentração às 12 horas no posto Moby Dick, na Praia da Costa, Vila Velha. Saída às 14h, com travessia da Terceira Ponte. O trajeto é o tradicionalmente utilizado em manifestações bolsonaristas na Grande Vitória.
O áudio veiculado menciona não apenas o 7 de Setembro, mas "Deus, pátria, família e liberdade", o slogan de Bolsonaro e seus apoiadores. O veículo não é plotado, não é possível saber, de antemão, quem o patrocina.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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