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Púlpito ou palanque?

Candidatos no ES apelam a cultos em meio à campanha eleitoral

Postulantes ao governo do estado e ao Senado deixam-se fotografar orando ou na companhia de líderes religiosos para atrair o voto evangélico

Publicado em 24 de Agosto de 2022 às 02:10

Públicado em 

24 ago 2022 às 02:10
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Renato Casagrande participa de culto evangélico
Renato Casagrande participa de culto evangélico Crédito: Instagram/Renato Casagrande
Não é só o presidente Jair Bolsonaro (PL) que apela aos evangélicos para manter intenções de voto relevantes nas eleições de 2022. O presidente da República se destaca nesse nicho, alegando travar uma "guerra espiritual", "do bem contra o mal". Claro que ele se diz o lado do bem.
O discurso é reforçado pela primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Apagada durante o mandato do marido, ela reapareceu na campanha eleitoral.
Para Michelle, Bolsonaro é praticamente o representante de Deus na Terra, como evidenciou durante a Marcha para Jesus – ou para Bolsonaro – em Vitória, em junho.
A narrativa religiosa, recheada de desinformação, como a história de que, se eleito, o PT vai mandar fechar igrejas, desvia a atenção das pautas do mundo real, como a inflação e o desemprego.
Os adversários de Bolsonaro ainda tateiam para decidir como enfrentar essa estratégia. No Espírito Santo, candidatos bolsonaristas apenas imitam o presidente da República.
O ex-deputado federal Carlos Manato (PL), que disputa o Palácio Anchieta, por exemplo, chamou um pastor para orar ao final da coletiva em que anunciou o vice na chapa, o empresário Bruno Lourenço (PTB).
O pastor, que também é candidato a deputado federal, Marinelshington (PL), pediu a plenos pulmões que Deus "nos livre dessa esquerda maldita que tem como plano a destruição das famílias".
Manato, assim como a esposa, a deputada federal Soraya Manato (PTB), que tenta a reeleição, deixa-se fotografar enquanto ora em salões ou altares de igrejas. Tudo postado nas redes sociais.
Carlos Manato e Soraya Manato em culto
Carlos Manato e Soraya Manato em culto Crédito: Reprodução/Instagram Manato
Magno Malta (PL), que tenta voltar ao Senado, faz o mesmo.
Mas a aproximação com o segmento evangélico não é exclusividade dos bolsonaristas.
Volta e meia algum candidato faz questão de divulgar para a imprensa que obteve o apoio do pastor tal ou da denominação religiosa X:
- Erick Musso (Republicanos), agora candidato ao Senado, foi à cúpula da Assembleia de Deus;
- Audifax Barcelos (Rede) faz questão de ressaltar, na campanha, que é fiel da Igreja Batista desde os 18 anos e apoia um pastor, Nelson Junior (Avante), para o Senado;
- Guerino Zanon (PSD), que é católico, está de mãos dadas com a Igreja Universal do Reino de Deus.
"A Igreja Universal do Reino de Deus está de mãos dadas com o senhor e nós vamos juntos até o fim. Vamos militar nesse exército! Aqui, fechamos uma aliança”, afirmou o bispo Bruno Gouveia, referindo-se a Guerino, em evento de campanha do candidato a deputado federal Devanir Ferreira (Republicanos), ele próprio pastor da Universal.
Bispo Bruno Gouveia ora para Guerino Zanon
Bispo Bruno Gouveia ora para Guerino Zanon Crédito: Divulgação
- E o governador Renato Casagrande (PSB), também católico, tem se reunido com pastores. Um deles até discursou na convenção estadual do PSB em apoio ao socialista. Casagrande também se deixa fotografar em cultos e posta no Instagram.
Nada disso é por acaso. Pesquisa realizada pelo Datafolha mostra que é entre o público evangélico que Bolsonaro se sai melhor que Lula no país, abrindo vantagem de 17 pontos percentuais sobre o petista. Os evangélicos podem ser a tábua de salvação do presidente da República. Esse grupo religioso representa 22,2% da população e não pode ser ignorado. 
Obviamente, não há nada de errado em ir à igreja ou em querer os votos dos fiéis que lá estão.
O problema é confundir as coisas. Quem exerce mandato eletivo deve fazê-lo servindo a toda a sociedade, não a apenas um segmento religioso. E o que rege nas leis no país é a Constituição, não a Bíblia.
O contrário seria uma teocracia. Quem acha que é boa ideia deveria observar melhor o Irã.
Também acho estranho, no limite da ética, quando líderes religiosos usam os púlpitos como palanques, dando espaço para determinado político discursar e pedindo votos para "o escolhido", tentando conduzir "o rebanho" até as urnas.
Não é por que eles pedem, é claro, que os fiéis vão obedecer cegamente. Os motivos que levam alguém a escolher um candidato são vários.
E a linha entre religião e política fica mais tênue nas denominações neopentecostais. Essa mistura não é tão evidente nas igrejas mais tradicionais.
Seriam ingênuos os eleitores que acharem que os políticos que flertam com as igrejas compartilham dos valores cristãos, em tese, pregados nos templos.
O cristianismo reverberado em muitos deles comporta propaganda de armas de fogo, ódio a outras religiões e a quem não reza pela cartilha conservadora. Aí até pode ser que haja uma adesão verdadeira.
Mas quando se fala de compaixão e honestidade, não necessariamente os candidatos sabem os versículos de cor.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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