Sair
Assine
Entrar

Entre para receber conteúdo exclusivo.
ou
Crie sua conta A Gazeta
Recuperar senha

Preencha o campo abaixo com seu email.

Entrevista

"Estamos com os pés no chão", diz ex-ministro petista sobre eleições de 2024

Ex-presidente nacional do PT, Ricardo Berzoini diz não esperar "crescimento extraordinário" do número de prefeitos petistas. Ele vai falar à militância do partido, em Vila Velha, sobre governo digital

Publicado em 08 de Agosto de 2024 às 09:11

Públicado em 

08 ago 2024 às 09:11
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

O ex-presidente nacional do PT e ex-ministro Ricardo Berzoini
O ex-presidente nacional do PT e ex-ministro Ricardo Berzoini Crédito: Zeca Ribeiro / Câmara dos Deputados
Presidente nacional do PT de 2005 a 2010, ex-ministro das Relações Institucionais (2014) e ex-ministro das Comunicações (2015), o petista Ricardo Berzoini entende bem o funcionamento da máquina do governo federal e da engrenagem do Partido dos Trabalhadores. Em entrevista à coluna, ele afirmou que a sigla está "com os pés no chão", ou seja, é realista quanto ao resultado das eleições municipais de 2024. 
"Há um pé no chão, ninguém acha que vai ter um crescimento extraordinário (do número de prefeitos eleitos pelo PT), mas estamos trabalhando para viabilizar a eleição de prefeitos e aumentar o número de vereadores".
Em 2020, o PT não elegeu prefeito em nenhuma capital brasileira. Foi a primeira vez que isso ocorreu. desde a redemocratização. E conquistou 183 prefeituras, o menor número em 16 anos.
Na Grande Vitória, agora, o partido lançou, por exemplo, João Coser, na Capital; João Batista Gagno Intra, o Babá, em Vila Velha; Célia Tavares, em Cariacica, e Professor Roberto Carlos, na Serra. O cenário é diferente do de quatro anos atrás, já que o PT está na Presidência da República, com Lula. Mas isso não deve bastar.
Nesta quinta-feira (8), à noite, Berzoini vai falar a militantes da sigla em Vila Velha sobre "Governo Digital — da participação popular e a transformação do PT de analógico em digital". O evento é capitaneado pela pré-campanha de Babá. 
Berzoini defendeu, na conversa com a coluna, que "o governo está digitalizado, do ponto de vista da prestação de serviços. No campo da informação, das redes sociais, há um longo caminho".
Ele também avaliou o risco de Lula se tornar o Biden do Brasil em 2026 e ser alvo de apontamentos de senilidade, caso dispute mais um mandato:
"Lula está com vigor físico e mental até superior a outros momentos "
Ricardo Berzoini - Ex-presidente nacionaldo PT
Há controvérsias. Lula parece, no mínimo, analógico. Mas confira a entrevista:
O PT sofreu um revés nas eleições de 2020, não venceu em nenhuma capital do país. Em 2024, tem 13 candidatos a prefeito em capitais, incluindo Vitória. Qual a expectativa para o resultado do pleito municipal, considerando municípios que não são capitais também?
Não faço parte da direção nacional, posso falar como militante. Há um pé no chão, ninguém acha que vai ter um crescimento extraordinário, mas estamos trabalhando para viabilizar a eleição de prefeitos e aumentar o número de vereadores.
Ninguém arrisca um palpite numérico. A eleição é dura. A eleição municipal é uma das mais difíceis.
Os temas municipais são muito mais importantes para o eleitor que os temas nacionais. Quem está na gestão e vai tentar se reeleger tende a conseguir, embora essa não seja uma regra geral, porque as prefeituras não estão desprovidas de recursos, por exemplo, elas podem contar com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal).
O importante é o partido e a federação (formada também por PV e PCdoB) trabalharem para crescer. 
Em São Paulo, por exemplo, o 13 não vai estar na urna, mas a vice do Guilherme Boulos (PSOL) é do PT. 
O senhor afirmou, em outras ocasiões, que o PT passa por um momento de envelhecimento e precisa de renovação. Mas o partido, aqui sou eu dizendo, continua "lulocentrado". 
O presidente Lula é, evidentemente, a principal liderança do partido, mas a hegemonia dele e dos que o cercam não é justamente o que impede o crescimento de novas lideranças?
Não é só isso. Esse é um fenômeno que ocorre em todo o mundo. A atividade política, por algum motivo, é pouco atrativa para os jovens. 
Quando fundamos o PT, éramos jovens, pessoas que participaram do movimento estudantil migraram para o movimento sindical, pois passaram a trabalhar em bancos, como eu, que sou bancário. 
A turma de 1980 e 1990 envelheceu, alguns envelheceram em cargos públicos. Não há a mesma espontaneidade dos anos 80 e 90. Hoje, tem que haver um planejamento, reconhecer que as pautas são diferentes, não as mesmas da geração de 40 anos atrás, e que existe uma vida digital.
Os mecanismos antigos de fazer politicas são menos eficazes. O meio digital está presente e o partido tem que usar isso.
A direita, sobretudo a direita bolsonarista, soube usar muito bem, falando pragmaticamente, as redes sociais. O algoritmo impulsiona as mensagens controversas, o que provoca indignação. Mas a esquerda, o PT, os lulistas, deveriam usar as mesmas armas? O (deputado federal) André Janones (Avante) faz muito isso. É esse o caminho sugerido?
Não podemos cair no oportunismo e no sensacionalismo.  A extrema direita age de maneira criminosa, atacando reputações sem qualquer cuidado, disseminando notícias falsas. Vimos o que isso significa em termos de potencial mas também em termos de risco.
O algoritmo gosta de baixaria, potencializa a agressividade. Mas não podemos nos rebaixar.
Temos que aproveitar a penetração política de mandatários e movimentos sociais para disseminar de forma rápida a contrainformação, ou o combate à desinformação, contrapor as mentiras com potência.
A desinformação alcança milhões e a sua resposta, milhares (de pessoas), apenas.
O senhor defende um governo digital. Hoje, o governo Lula é analógico?
O governo está digitalizado do ponto de vista de prestação de serviços. No campo de informação, das redes sociais, há um longo caminho.
O presidente Lula tem escorregado bastante ao discursar, para dizer o mínimo. 
A comunicação tem que ser mais objetiva, curta. Discurso longo não faz sentido nenhum. Isso é muito comum na esquerda. Aí, você escorrega no discurso e o que viraliza é a sua escorregada, sem o contexto.
Isso tem a ver com essa questão digital. Todo mundo pode errar numa fala, mas vira uma coisa constrangedora. É um desafio de comunicação.
Nos EUA, vimos um processo de corrosão da imagem do presidente Biden devido à idade dele e ao comportamento visto por alguns como senil. Há o risco de o mesmo discurso ser usado contra Lula em 2026?
O risco existe, vão buscar qualquer argumento. Mas Lula está com vigor físico e mental até superior a outros momentos. O que houve com Biden é que ele teve dificuldade de completar o raciocínio, o que denota uma dificuldade de fazer política. 
Não creio que vai ser o caso de Lula em 2026.
O senhor assumiu a presidência nacional do PT em 2005, ano em que surgiu o escândalo do mensalão (que o senhor chama pelo nome formal, Ação Penal 470). Depois, houve a Operação Lava Jato, que, apesar de todas as controvérsias e erros, revelou também um esquema de corrupção.
A imagem do partido ficou muito relacionada à corrupção. Não é possível negar que o sentimento antipetista existe e, inclusive, é forte no Espírito Santo. Como contornar isso?
Considerando como a imprensa tratou as duas denúncias (mensalão e Lava Jato) esse é o resultado. Eu acompanhei de perto. Era difícil até a imprensa registrar o contraditório (o outro lado). Conheci pessoas que não tinham nenhuma relação com corrupção e foram envolvidas. 
"O PT sobreviveu ao ataque (mensalão e Lava Jato), o que já é um mérito. Outros partidos não sobreviveriam"
Ricardo Berzoini - Ex-presidente nacional do PT
No Espírito Santo, de dez deputados federais, dois são do PT, o Helder Salomão e a Jack Rocha, duas pessoas com boa imagem pública e que têm responsabilidade.
Não superamos totalmente aquela situação, mas estamos em vias de superar.
Mas eu observo que partidos e líderes políticos evitam se associar ao PT nas eleições municipais, ao menos no Espírito Santo. Não por terem algo contra os candidatos petistas em si, mas sim por não quererem ser alvos dos antipetistas. Siglas de centro e centro-direita, principalmente, querem distância do Partido dos Trabalhadores.
Temos o bloco da extrema direita, que apoia Bolsonaro, e o Centrão que é centro e centro-direita. Eles têm aliança com o PT em estados e municípios.
No Nordeste, eles estão nos governos nossos, não há preconceito. Há um processo de superação, mas que é lento.
O senhor mencionou "pessoas que não tinham relação com corrupção". Mas admite que houve corrupção nos governos do PT?
Eu sempre disse que, se houver casos, a pessoa física responde. Cada um responde pelos seus atos. Por causa da Lava Jato, empresas foram à falência ou à recuperação judicial.
A instituição tem que ser preservada, seja uma instituição empresarial, seja uma instituição partidária.
Para finalizar, o senhor falou aqui sobre uso de redes sociais e que petistas não devem "se rebaixar". Mas, após o atentado contra o ex-presidente dos EUA Donald Trump, em julho, o senhor fez um post considerando que o atentado foi uma "encenação". Isso é típico de teorias da conspiração alimentadas pela extrema direita (não contra Donald Trump, evidentemente), que o senhor critica...
No dia que aconteceu (o atentado), achei uma coisa pouco crível, mas como não houve contestação dos democratas (filiados ao partido Democrata, dos Estados Unidos), não mantive essa opinião.
A cena foi patética, mas quem tem competência para questionar é o partido que está no poder. Eu, como brasileiro, não tenho mais nada a dizer.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

Viu algum erro?
Fale com a redação
Informar erro!

Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rapido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem

Fale com a gente

Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta

A Gazeta integra o

Saiba mais

Recomendado para você

Sede do STF, em Brasília
Impasse sobre royalties do petróleo no STF precisa ser superado com a lógica
Imagem de destaque
Segunda Ponte pode passar a ter três faixas como feito na 3ª Ponte
Imagem de destaque
Jardim sensorial: veja como criar um espaço que ativa os sentidos humanos

© 1996 - 2024 A Gazeta. Todos os direitos reservados