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"O cabeça de tudo"

Juiz do ES é investigado por atuar como empresário

Negócio, na casa dos milhões, tem sede na Bahia. Corregedoria apontou indícios de que magistrado era o administrador da empresa e não apenas sócio cotista

Publicado em 17 de Setembro de 2021 às 02:00

Públicado em 

17 set 2021 às 02:00
Letícia Gonçalves

Colunista

Letícia Gonçalves

lgoncalves@redegazeta.com.br

Sessão do Tribunal de Justiça do Espírito Santo
Sessão do Tribunal de Justiça do Espírito Santo desta quinta-feira (16) Crédito: Reprodução/YouTube TJES
Condenado à aposentadoria compulsória pelo Tribunal de Justiça do Espírito Santo (TJES), o juiz Marcos Horácio Miranda, da 9ª Vara Cível de Vitória, vai responder a mais um Processo Administrativo Disciplinar (PAD). 
Apuração preliminar da Corregedoria do Tribunal apontou indícios de que ele exercia atividade como empresário do ramo de extração de rochas ornamentais, o que é proibido. Magistrados podem até ser sócios de empresas, mas não estar à frente dos negócios.
Há ainda outros agravantes, no entender do corregedor, desembargador Ney Batista Coutinho. A atuação empresarial de Miranda se dava na cidade de Macaúbas, na Bahia, a 1.182 quilômetros da capital do Espírito Santo.
E mais: apesar da distância, de alguma forma, o foro para o ajuizamento de ações em relação a eventuais disputas envolvendo a empresa é Vitória, onde, presumivelmente, o juiz teria mais influência.
À unanimidade dos votos, os desembargadores do TJES decidiram, nesta quinta-feira (16), abrir o PAD. Isso significa que vai haver uma investigação mais aprofundada sobre os fatos.
Ao final do procedimento, o juiz pode ser punido com penas que variam de advertência à aposentadoria compulsória com remuneração proporcional ao tempo de serviço.
Sim, ele já foi condenado à pena máxima na esfera administrativa. Se acontecer de novo, isso não reduz nem tampouco anula os rendimentos do magistrado. O que ocorre é que, se ele conseguir reverter, por meio de recurso, uma das condenações, ainda vai restar a outra, mantendo-o na inatividade. 

"O CABEÇA DE TUDO"

A exploração mineral realizada pela empresa do magistrado ocorria na Fazenda Curral Velho, em Macaúbas. O sócio de outra empresa do ramo que manteve negócios com o magistrado foi quem procurou a Corregedoria do TJES.
Em depoimento, ele narrou que o juiz ia à Bahia e inclusive esteve na pedreira em que os trabalhos ocorriam. Registros de companhias aéreas reforçam os relatos. 
Esse empresário contou que as tratativas sobre a exploração mineral, as licenças e tudo que dizia respeito à relação comercial era tratado diretamente com o magistrado.
"Este era o cabeça de tudo", disse o corregedor, citando o depoente. O empresário contou que ouviu do juiz: "Fica tranquilo que quem resolve sou eu". 
Contratos assinados pelo magistrado também corroboram a narrativa. 

MILHÕES

Não fica claro, pelo voto do corregedor lido na sessão desta quinta, a quantia movimentada pela empresa da qual o magistrado era sócio. Mas algumas cifras foram citadas. 
O empresário que procurou a Corregedoria contou a seguinte história: em junho de 2020 o juiz autorizou funcionários a entrarem na fazenda para a retirada de 60 metros cúbicos de quartzito azul, "sendo que cada metro cúbico custa custa quatro mil dólares", leu o desembargador Ney, referindo-se às palavras do depoente. O empresário considerou a atitude uma "usurpação".
Depreende-se que esse foi um dos fatores que geraram divergência com o magistrado, levando ao acionamento da Corregedoria. 
O corregedor citou ainda, no voto, a assinatura de um contrato, em 2019, pelo qual o magistrado e um sócio receberiam R$ 6 milhões.
"Todos os contratos com o nome do juiz, seja como pessoa física ou sócio, têm como foro a cidade de Vitória (ES), apesar de a jazida se encontrar na Bahia", afirmou Ney Batista Coutinho, na sessão.
Outras duas pessoas prestaram depoimento e relataram viagens do juiz à Bahia e a Alagoas para tratar de assuntos da empresa. E também foram recebidas pelo magistrado em Vitória pelo mesmo motivo.
"Verifica-se que existem indícios que o juiz era o real responsável pela administração da Prime Mineral Stones, apesar de o contrato indicar como sócio administrador o filho dele", afirmou o corregedor.
Um desses indícios é que o juiz constituiu advogado para representá-lo, em nome dele mesmo, e não do filho ou da empresa, em demandas na Agência Nacional de Mineração.

PROIBIÇÃO

"Não se busca criminalizar ou impossibilitar que magistrado ostente a condição de sócio de empresa, mas a gestão empresarial é incompatível com a magistratura", alertou o desembargador.
A proibição constante na Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman) e no Código de Ética da Magistratura existe para "assegurar imparcialidade e independência do juiz e resguardar imagem do Judiciário", nas palavras do corregedor. 
Além disso, a prática pode prejudicar a atividade do magistrado. No caso em questão, isso pode ser evidenciado, ao menos em tese, pelas "intensas viagens e reuniões para tratar de assuntos da empresa", ainda de acordo com Ney Batista Coutinho.

R$ 33, 6 mil

É o subsídio mensal de um juiz de Direito

GRAVE

O decano da Corte, desembargador Adalto Dias Tristão, afirmou ao votar, que os fatos são graves. "Embora não se possa falar em apenamento antecipado, os fatos narrados são relevantes, graves, e precisam de efetiva apuração mais detalhada".
"Além da informação de que geria a empresa, foi eleito o foro de Vitória para dirimir quaisquer dúvidas relativamente aos contratos em referência e efetivamente surgiram processos que estão tramitando na comarca de Vitória", ressaltou.
O relator do PAD vai ser o desembargador Namyr Carlos de Souza Filho, definido por sorteio.

NOMEAÇÃO DE PERITOS

No dia 5 de agosto, o TJES condenou o juiz Marcos Horácio Miranda à aposentadoria compulsória, desta vez por nomear pessoas próximas como peritos judiciais. 
Ele nomeou, por exemplo, o próprio cunhado para atuar como perito. Fez o mesmo com familiares de uma assessora. Além disso, escolheu como peritos alguns dos sócios dele na empresa de mineração.
Peritos são técnicos, como engenheiros e médicos, que auxiliam o juiz em determinados casos. E recebem honorários por isso.

O OUTRO LADO

O advogado Raphael Câmara, que defende o magistrado, afirmou à coluna que respeita a decisão do Tribunal de Justiça, mas vai recorrer, nos dois casos. 
"O magistrado Marcos Horácio é probo e sempre cumpriu com dedicação as suas funções judicantes", afirmou Câmara.

Letícia Gonçalves

Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.

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