Mais de 200 lanches e 40 jantares: os gastos no cartão corporativo de Bolsonaro no ES
Notas fiscais reveladas
Mais de 200 lanches e 40 jantares: os gastos no cartão corporativo de Bolsonaro no ES
Agência Fiquem Sabendo teve acesso a parte das notas fiscais que detalham despesas do então presidente e da equipe que o acompanhou. O que levou ao gasto de R$ 24 mil numa padaria de São Mateus, entretanto, segue sem comprovação
Publicado em 24 de Janeiro de 2023 às 02:10
Públicado em
24 jan 2023 às 02:10
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
O então presidente da República, Jair Bolsonaro, cumprimenta apoiadores no Aeroporto de Vitória no dia 11 de junho de 2021Crédito: Alan Santos/PR
Já se sabia os valores gastos e os estabelecimentos em que o cartão corporativo da Presidência da República foi utilizado nessa ocasião.
Isso foi colocado sob sigilo pelo governo Bolsonaro, mas a agência Fiquem Sabendo obteve resposta, já no governo Lula (PT), por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). Foram esses dados que a coluna publicou no dia 12 de janeiro.
A despesa, a priori, não é ilegal. O cartão corporativo foi criado para arcar com serviços e compras de última hora que o presidente da República e sua equipe mais próxima considerem necessários. Também pode ser usado durante as viagens oficiais.
Nem tudo, entretanto, estava sob a luz do sol. Faltavam as notas fiscais, com o detalhamento dos gastos. Quantas refeições? Quantos lanches? Quantos pães foram adquiridos?
A Fiquem Sabendo fez um novo pedido pela LAI e agora teve acesso aos documentos.
Na Padaria Dois Irmãos, em Maria Ortiz, Vitória, o cartão corporativo à disposição de Bolsonaro pagou por 262 kits lanche. Cada um custou R$ 25. No total, foram R$ 6.550.
A equipe do presidente também comprou três pacotes de gelo seco no estabelecimento, totalizando R$ 45. É o que mostra a nota fiscal emitida em 10 de junho de 2021, um dia antes de o então presidente da República chegar ao estado.
O time dele vem antes para fazer os preparativos e garantir a segurança.
No Slaviero Hotel, localizado na Av. Dante Michelini, em frente à Praia de Camburi, foram gastos R$ 25,2 mil em diárias. O cartão foi usado duas vezes no mesmo dia, 11 de junho daquele ano. Parte da equipe chegou no dia 8 e foi embora no dia 12. Outros partiram um dia antes.
Bolsonaro não passou a noite no Espírito Santo.
No Pampa Tchê, bar e restaurante que fica em Maria Ortiz, o cartão bancou 40 refeições no almoço do dia 10 de junho de 2021, por R$ 28 cada uma, no total de R$ 1.120. As mesmas quantidades e cifras foram registradas no jantar do dia 11.
Já no jantar do dia 10 foram 26 refeições por R$ 28 cada uma, no total de R$ 728, o que se repetiu no almoço dia dia 11 de junho.
Também houve a compra de 26 garrafas de água mineral. Ao todo, o Pampa Tchê recebeu R$ 3.774,00 pelas mercadorias e serviços prestados.
Outra nota fiscal mostra que foram gastos R$ 7.390,00 na Bex Mkt Esportivo e Eventos com "cessão de andaimes, palcos, coberturas e outras estruturas de uso temporário".
A coluna já havia apurado, ao ligar para o estabelecimento, que tratou-se da instalação de grades de segurança no Aeroporto de Vitória por ocasião da visita do presidente.
O governo federal, na época de Bolsonaro, não informou a A Gazeta quantos funcionários acompanharam o presidente na visita.
Nem todas as notas fiscais estão disponíveis para consulta. A agência de dados Fiquem Sabendo teve acesso aos documentos, que são guardados em um almoxarifado do Pavilhão de Metas, a 700 metros do Palácio do Planalto.
As notas não estão digitalizadas.
"Essas notas já deveriam estar na internet, mas até o momento a única forma de acessá-las é em um prédio do governo federal, em Brasília (DF). No formato atual – caixas e mais caixas de papeis arquivados em um só lugar – o risco de prejuízo é enorme. Muitas das notas estão praticamente apagadas e difíceis de ler. E é praticamente impossível que todo cidadão que queira ter acesso a essas notas consiga entrar no prédio, que tem entrada controlada", registrou a agência.
Até agora, foi a própria Fiquem Sabendo que digitalizou 2,6 mil páginas, o equivalente a 20% do total. E divulgou o resultado.
R$ 24 MIL EM PADARIA DE SÃO MATEUS
Ainda não estão no link todas as notas referentes ao uso do cartão corporativo de Bolsonaro no Espírito Santo. As despesas feitas em São Mateus seguem sem o detalhamento.
Já sabemos, por exemplo, que R$ 24.095,00 foram gastos na padaria Plenitude, em São Mateus, no dia 11 de junho de 2021. Tudo por pago por meio do cartão corporativo de Bolsonaro.
O presidente mesmo não foi ao estabelecimento. Juliana Ferraz, filha do dono da panificadora contou à coluna que foi servido café da manhã à equipe dele, entregue nas unidades da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal de São Mateus.
Mas o que realmente foi comprado, a quantidade e o tipo de alimento, segue sem divulgação, devido à falta de transparência em relação às notas fiscais.
MOTOCIATA
Bolsonaro durante motociata entre Vila Velha e Vitória em julho de 2022Crédito: Vitor Jubini
Outro "mistério" é que Bolsonaro voltou ao Espírito Santo em julho de 2022. Mas na tabela divulgada pelo governo federal não consta nenhum uso do cartão corporativo no estado nas datas próximas à visita.
Nessa ocasião, o então presidente fez até uma motociata pelas ruas Vitória e Vila Velha, às vésperas do início da campanha eleitoral.
Por meio da LAI a reportagem de A Gazeta descobriu que a viagem de julho de 2022, em que Bolsonaro ficou poucas horas em solo capixaba, custou ao menos R$ 304 mil.
Ao analisar as notas fiscais referentes a despesas em outros estados, o Estadão apurou que toda vez que Jair Bolsonaro decidia viajar a lazer ou passear de moto por capitais do país ele era acompanhado por até 300 militares ao custo médio de R$ 100 mil para os cofres públicos.
No dia 7 de junho de 2019, por exemplo, foram comprados 6,3 kg de picanha maturatta, 15 kg de filé mignon sem cordão e ainda peças de costela defumada, batata palha, potes de palmito e azeitona. A conta deu R$ 1.443,07, com R$ 147,28 em descontos. Os pescados também aparecem na lista de compras da residência oficial.
Em abril de 2019 foram adquiridos 4,2 kg de camarão rosa, 7,2 kg de bacalhau e 10,8 kg de filé de robalo ao preço de R$ 2.241,55. No intervalo de um ano foram ao menos 14 compras de picanha, 47 de mignon e 15 de bacalhau. Essas despesas eram frequentes – às vezes mais do que uma vez na semana, contabilizou o Estadão.
Outros ex-presidentes também comiam essas coisas no Palácio da Alvorada, residência oficial? Sim.
Mas Bolsonaro é que fazia questão de se exibir comendo pão com leite condensado, entre outros quitutes simples. Ele também dizia, em lives, que não usava o cartão corporativo. Mas usava.
Nota fiscal mostra gastos feitos no cartão corporativo de Bolsonaro em restaurante de VitóriaCrédito: Reprodução/Fiquem Sabendo
OUTROS PRESIDENTES
Observando os dados divulgados no link disponibilizado recentemente pelo governo federal com os gastos feitos via cartão corporativo dos presidentes da República desde 2003, poderia-se afirmar que Bolsonaro gastou menos que Lula e Dilma, por exemplo. Eis os valores corrigidos pela inflação em relação ao primeiro mandato de cada um:
Governo Bolsonaro (2019-2022) – R$ 32,6 milhões
Governo Dilma 1 (2011-2014) – R$ 42,3 milhões
Governo Lula 1 (2003-2006) – R$ 59 milhões
Há, entretanto, um porém.
O Portal da Transparência do governo federal exibe o gasto total com o cartão corporativo da Presidência da República, mas sem informações sobre onde a despesa foi feita. A lista de estabelecimentos, com os respectivos CNPJs, foi divulgada em um link separado.
E quando se olha os dados no Portal da Transparência, vê-se que Bolsonaro gastou, na verdade, três vezes mais nos quatro anos de mandato do que consta na tabela do link com os gastos detalhados.
Em valores nominais (sem correção pela inflação), Bolsonaro e sua equipe pessoal gastaram R$ 27,6 milhões no cartão corporativo entre 2019 e 2022. Isso é o que mostra a tabela com os pormenores das despesas.
O Portal da Transparência, entretanto, exibe que a cifra referente ao cartão da Presidência da República, nesse mesmo período, foi de R$ 75 milhões. Só em 2022, chegou a R$ 22,8 milhões. A coluna conferiu e o leitor pode fazer o mesmo clicando aqui.
"O que não está esclarecido é o que significam, afinal, esses dados que eles divulgaram. Será que é só um pedaço? Falta atualizar, falta colocar os dados com viagens internacionais ou se colocaram só um órgão? Sem essas informações fica muito difícil fazer qualquer comparativo [com outros governos]", afirmou o jornalista Luiz Fernando Toledo, cofundador da agência "Fiquem Sabendo", em entrevista ao UOL.
Quer dizer que os dados sobre os gastos de Bolsonaro no Espírito Santo estão errados? Não. Até porque funcionários e proprietários dos estabelecimentos confirmaram as despesas à coluna.
Isso significa apenas que o governo federal precisa explicar melhor o que foi disponibilizado e o que não foi.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.