Megaoperação no Rio expõe uso político da segurança pública, inclusive no ES
Eleições 2026
Megaoperação no Rio expõe uso político da segurança pública, inclusive no ES
Tema certamente vai pautar as eleições de 2026. Não à toa, já rendeu discursos inflamados, posts nas redes sociais e até CPI
Publicado em 03 de Novembro de 2025 às 07:43
Públicado em
03 nov 2025 às 07:43
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Polícia faz megaoperação no Complexo da Penha e no Alemão, Rio de JaneiroCrédito: Agência Enquadrar/Folhapress
"Nada é mais violento do que a política; se os militares só combatem quando estão em guerra, os políticos estão em guerra o tempo todo", escreve o analista político ítalo-suíço Giuliano Da Empoli, em "A hora dos predadores".
O combate a que ele se refere, claro, é metafórico, mas os ares de uma guerra bem real levaram recentemente os políticos brasileiros, inclusive os do Espírito Santo, a adotar táticas para ganhar terreno. A megaoperação no Rio de Janeiro que deixou mais de 120 mortos, no último dia 28, exigiu posicionamentos públicos e um mínimo de medidas práticas, afinal, estamos em ano pré-eleitoral.
Na Assembleia Legislativa, a megaoperação virou assunto dos discursos dos parlamentares e o presidente da Casa, Marcelo Santos (União Brasil), enviou ofício ao governador Renato Casagrande (PSB) sugerindo "que as forças de segurança fiquem em estado de alerta".
O vice-governador Ricardo Ferraço (MDB), coordenador do programa Estado e Presente e pré-candidato a governador, afirmou que não há nenhum indício de migração em massa de bandidos cariocas para o Espírito Santo. Mas o serviço de inteligência está monitorando quaisquer movimentações.
O que ocorre, na verdade, é uma onda de respostas midiáticas, não necessariamente com efeitos a médio prazo. Se os políticos silenciassem, porém, também seriam criticados.
É um tema que, certamente, vai permear as eleições de 2026.
A própria operação, determinada pelo governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), pode ser lida como um ato político-eleitoral. Uma evocação, ainda que mais branda, dos métodos de Nayib Bukele, em El Salvador.
A ideia central é responder às barbaridades cometidas pelos criminosos com mais barbárie. Uma população assustada exige alguma resposta, nem que seja essa.
É aí que mora o perigo. Não há soluções simples para problemas complexos.
Matar vários (supostos) bandidos sem o devido processo legal mostra atitude, mas não inteligência.
As grandes lideranças do Comando Vermelho e, principalmente, o dinheiro do grupo não pararam de circular. Os tentáculos do crime organizado nas instituições públicas também continuam intactos.
Mas investigar, cruzar dados e fortalecer as corregedorias das polícias é algo bem menos espetacular do que tiro, porrada e bomba.
Quem disser o contrário, portanto, corre o risco de perder votos.
A esquerda e a centro-esquerda, historicamente no Brasil, deixaram a pauta da segurança pública em segundo plano, o que abriu caminho para a direita se arvorar como "especialista" no assunto.
Nem deveria ser uma declaração polêmica. Embora não raro haja mortes em confrontos com a polícia ou possíveis execuções extrajudiciais durante operações, um número grande de mortes assim, realmente, não é algo que se veja todo dia.
Mas, no Instagram, grande parte dos mais de 15 mil comentários dos leitores contêm críticas ao governador e em defesa da matança.
Não faço aqui uma análise detalhada desses comentários, é apenas uma observação.
Quanto ao governo Lula (PT), há dados mais concretos. A AP Exata monitorou que, após a megaoperação no Rio, a imagem do presidente da República piorou nas redes sociais.
Isso reverteu o bom momento angariado após a defesa da soberania nacional feita pelo petista diante das tarifas impostas pelos EUA ao Brasil.
O humor dos eleitores, como se nota, é variável. Mas a questão da segurança pública não vai desvanecer em 2026, até porque é um problema real, não trata-se de "narrativa".
O mesmo não se pode dizer das soluções propostas por Cláudios Castros da vida.
Apelar aos direitos humanos, ao bom senso e ao "espírito cristão" do povo brasileiro, entretanto, tampouco adianta.
As pessoas sofrem na pele e no bolso os efeitos das atividades das organizações criminosas. É natural que tenham mais compaixão por si mesmas que por seus algozes.
Mais eficiente seria apontar a pouca inteligência e o desequilíbrio entre o custo e o benefício de megaoperações como a realizada nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio. E apresentar medidas que, realmente, façam a diferença.
Enquanto o espetáculo das balas rende holofotes, o crime organizado continua operando nos bastidores — onde o Estado raramente se faz presente.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.