Comissão investiga "o real propósito" e "os financiadores" do movimento e é relatada pelo ex-ministro do Meio Ambiente de Bolsonaro Ricardo Salles. Ao todo, CPI tem 27 membros titulares
Publicado em 19 de Junho de 2023 às 10:40
Públicado em
19 jun 2023 às 10:40
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
CPI do MST na Câmara dos DeputadosCrédito: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
Os deputados federais do Espírito Santo Evair de Melo (PP) e Messias Donato (Republicanos) integram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga "o real propósito" e "os financiadores" do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). A CPI foi instaurada em 18 de maio e tem duração de 120 dias, prorrogáveis.
Na prática, a comissão é protagonizada por detratores do governo Lula (PT), como o ex-ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro Ricardo Salles (PL), relator do colegiado.
Evair faz oposição ao governo federal. O Republicanos de Messias Donato não integra a base aliada ao governo petista. Vez por outra, a bancada do partido vota a favor dos projetos do Executivo federal, mas Donato não tem simpatia pela gestão do PT.
Os dois deputados do Espírito Santo participaram de audiências realizadas pela CPI. Uma com um casal ex-integrante do MST e outra com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União).
A tônica de Evair e de Donato é de questionamento e contrariedade em relação ao movimento dos sem-terra.
O parlamentar do PP é vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, a chamada bancada ruralista. "Sou do agro", ressaltou, à coluna.
O do Republicanos está no primeiro mandato como deputado federal e diz que o objetivo da CPI é proteger o produtor rural.
Deputado federal Evair de MeloCrédito: Zeca Ribeiro/Câmara dos Deputados
Para Evair, há, no Brasil, uma "indústria de sem-terra". Donato, por sua vez, visitou uma propriedade no interior de São Paulo e contou ter se deparado com "um centro de catequização do comunismo", porque lá havia frases de "Che Guevara e de Lênin".
Lembrado que não é crime citar frases desses dois personagens históricos, ainda que sejam figuras, no mínimo, controversas, o deputado se surpreendeu. "Quero acreditar que você não defenda o comunismo", respondeu à coluna.
Não, não defendo. Avalio que é preciso uma certa dose de ingenuidade e de esperança para apostar em uma sociedade igualitária a ser viabilizada por um Estado totalitário.
Algo que não combina com minha inclinação ao ceticismo.
Já para a CPI do MST, vale a máxima aplicada a todas as Comissões Parlamentares de Inquérito: sabe-se como começa, não como termina.
Formalmente, pode render sugestões de indiciamento e propostas legislativas.
Quem ganha mais visibilidade são o relator, Ricardo Salles, e o presidente do colegiado, Tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS).
Deputado federal Messias Donato na CPI do MSTCrédito: Myke Sena/Câmara dos Deputados
ELEIÇÕES 2026
As eleições de 2022 para o Congresso Nacional foram marcadas por um componente ideológico centrado no bolsonarismo X lulismo ou direita X esquerda, ainda que tais conceitos não sejam dominados por grande parte do eleitorado.
Assim, integrar uma CPI "ideologizada" pode ajudar no pleito de 2026, ainda que a participação seja coadjuvante. A CPI do MST tem 27 membros titulares.
Lula e integrantes do PT têm proximidade com o movimento dos sem-terra.
Evair de Melo e Messias Donato podem usar a participação no grupo como um ativo.
Evair, aliás, quer ser candidato ao governo do Espírito Santo em 2026 e já se movimenta para tal.
Donato, primeiro, está de olho em 2024. No ano que vem, o prefeito de Cariacica, Euclério Sampaio (União Brasil), vai tentar a reeleição. A prioridade do deputado federal é ajudá-lo.
"Me sinto desafiado a ser o principal cabo eleitoral do prefeito Euclério Sampaio em 2024", cravou o parlamentar.
Messias Donato foi secretário municipal na gestão de Euclério e contou com o apoio do prefeito para chegar à Câmara.
Além da CPI, o deputado integra outros grupos, como a Frente Contra a Sexualização Precoce de Crianças, proposta pelo próprio republicano, "sempre em defesa da família, dos valores cristãos e conservadores".
Ele é fã do ex-presidente da República Jair Bolsonaro (PL), assim com o Evair.
MST
Artigo publicado no site do MST, avalia que a CPI, em vez de ameaçar, "torna o movimento ainda mais forte":
"O Movimento tem recebido uma onda de mensagens e atos de solidariedade em todo o país e de outros países, garantindo um espaço de discussão nunca antes alcançado", diz o texto.
"Sem fato determinado, a CPI é formada por maioria de deputados financiados pelo agronegócio e envolvidos em escândalos e investigações, a começar pelo presidente da comissão, Tenente-coronel Zucco (Republicanos-RS), investigado pela Polícia Federal sob a suspeita de ter estimulado atos antidemocráticos e dono da frase 'prefiro Covid do que essa merda de vacina'", registra outro trecho.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.