Padre critica comandante da PM e silêncio de políticos sobre violência em Vitória
Confrontos
Padre critica comandante da PM e silêncio de políticos sobre violência em Vitória
Kelder Brandão falou aos fiéis na missa de domingo (9). Religioso acertou ao chamar a atenção para problema que aflige moradores, mas levantou suspeitas sem provas
Publicado em 10 de Julho de 2023 às 15:45
Públicado em
10 jul 2023 às 15:45
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Policiais militares no bairro Bonfim, em VitóriaCrédito: Roberto Pratti
Para ele, é "obscena" a maneira como a Sesp lida com o problema e também "o silêncio cúmplice dos políticos" eleitos com votos de moradores da região.
No Bairro da Penha, Natanaeliton da Mota, de 24 anos, foi alvejado por policiais. Segundo o secretário de Segurança Pública, coronel Alexandre Ramalho, o rapaz, que tinha mandado de prisão em aberto, disparou contra os militares, que revidaram. Natanaeliton morreu no local.
Já no Bonfim, um homem em situação de rua, de 45 anos, conhecido como "Mineiro", foi morto a tiro durante conflito entre PMs e bandidos. Uma investigação da Polícia Civil deve indicar de onde partiu a bala.
Entre as horas que separaram as duas ocorrências, os moradores ouviram muitos tiros, principalmente na madrugada.
E esses não foram os únicos episódios. Na última quarta-feira (5), um homem atacou o Destacamento Policial Militar (DPM) do Bairro da Penha e baleou um sargento. O militar foi ferido no braço e passa bem. Na quinta (6), o suspeito apareceu morto.
Antes, o comandante-geral da PM, coronel Douglas Caus, publicou um vídeo afirmando que o homem que disparou contra o sargento deveria se entregar ou iria "descer no saco preto".
De acordo com o coronel Caus, o suspeito, Luciano da Silva Pereira, foi assassinado por traficantes.
Foi na esteira desses dias de tensão que o padre Kelder falou aos fiéis da paróquia de Itararé durante a homilia da missa de domingo (9).
"Durante décadas a fio o poder público ignora os direitos individuais, sociais e econômicos dos pobres de nosso Território, abrindo espaço para que o tráfico de drogas e de armas ocupassem o vazio deixado pelas instituições públicas", afirmou o religioso.
"Da mesma maneira que fechou os olhos para a corrupção nas forças de segurança que, no dizer de um conselheiro da paróquia 'no passado, a gente só via revolver 38 nas nossas comunidades, nas mãos dos traficantes. Foi só a polícia mudar seu armamento que passamos a ver pistolas e fuzis nas mãos de jovens, crianças e adolescentes em nosso meio'", continuou.
O padre, assim, insinuou que armas do Estado, disponibilizadas para os policiais, que usam, principalmente, pistolas, foram desviadas para bandidos e, por fim, destinadas a adolescentes e crianças recrutados pelo tráfico.
Cabe frisar que, até prova em contrário, não há indício da existência um esquema de desvio de armas de policiais para traficantes no Espírito Santo. O que houve nos últimos anos foi o crescimento do armamento da população civil.
No governo Jair Bolsonaro (PL), a posse de armas foi flexibilizada, legalmente, para quem tem registro de Colecionador, Atirador Esportivo e Caçador (CAC). Historicamente, sabe-se que armas inicialmente legais abastecem o crime.
Se há alguma denúncia de corrupção nas forças de segurança, ela precisa ser feita aos canais competentes, como a Ouvidoria do Ministério Público (MPES), para a devida apuração.
Críticas às políticas públicas ou à falta delas, porém, são legítimas.
"As imagens do sangue e miolos misturados ao lixo do jovem fuzilado nas escadarias do bairro Bonfim, na madrugada de ontem (sábado), são assustadoras, da mesma forma que é obscena a maneira como a Secretaria de Segurança Pública e o Comando da PM têm lidado com a violência em nossa paróquia", afirmou Kelder Brandão, durante a homilia.
"Principalmente o que ouvimos do comandante geral da PM, estimulando a execução sumária do homem que atirou no DPM do Bairro da Penha, que, segundo ele próprio e a imprensa, estava em surto", continuou o religioso.
"Mais uma pessoa foi executada de maneira cruel, desvelando a íntima relação da violência do tráfico de drogas e de armas com a violência do braço armado do Estado, a Polícia Militar", acusou o religioso.
Realmente, foi, no mínimo, imprudente e, digamos, pouco cristão, o coronel Caus, na ânsia de capturar o autor do disparo contra o sargento, falar em "saco preto", exortando a morte do suspeito.
Daí a colocar toda a Polícia Militar no mesmo saco, com o perdão do trocadilho, são outros quinhentos. Quero dizer que não se deve generalizar.
Mas o padre não criticou apenas a cúpula da Segurança Pública.
"É obsceno o silêncio cúmplice dos políticos eleitos com votos do Território do Bem e que fingem não ver ou ouvir o que está acontecendo em suas bases eleitorais"
Kelder Brandão - Padre da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Itararé
"Ao invés de defenderem os direitos da população que representam, (os políticos) calam-se diante do caos estabelecido e das vidas assassinadas, isso sem falar na responsabilidade do próprio governador do estado e do prefeito de Vitória que optam por investir milhões de reais em armas que produzirão mais violência", apontou o religioso.
"Os acontecimentos dos últimos dias em nossa paróquia não são fatos isolados, mas estão conectados a outros acontecimentos violentos no estado, reafirmando a prática das execuções sumárias no Espírito Santo, a institucionalização da violência e a banalização da vida em nosso meio", avaliou o padre, ainda durante a homilia.
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A homilia do padre Kelder Brandão
Veja a íntegra do que disse o religioso no domingo (9)
Não é a primeira vez que Kelder Brandão se opõe à política de segurança pública e a atitudes, por exemplo, do coronel Ramalho.
Em maio, o secretário de Segurança Pública viralizou após postar, nas redes sociais, um vídeo em que dava "conselhos" a um adolescente flagrado com drogas, em Linhares. O coronel ainda criticou, no vídeo, acessórios usados pelo jovem, que é negro.
Para o religioso, o episódio ilustrou "o racismo estrutural nas instituições públicas capixabas". Ramalho, por sua vez, considerou a declaração do padre como "descabida" e "lamentável".
DUBOC: "NOSSA POLÍCIA É LEGALISTA"
Nesta segunda-feira (10), a coluna procurou o comandante da PM, coronel Douglas Caus, para que ele comentasse a mais recente homilia do padre Kelder, e também a Secretaria Estadual de Segurança Pública.
O governo escalou o secretário de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc, para conceder entrevista. Ele, delegado aposentado da Polícia Federal, é o coordenador do Programa Estado Presente.
Questionado pela coluna sobre a frase do "saco preto" proferida pelo coronel Caus, Duboc afirmou que a orientação do governo não é de procurar o confronto e tampouco de incentivar mortes.
"A orientação do governo, e do governador, é de uma política pública legalista. Não há conivência com ação premeditada de confronto com criminosos por parte do Estado", sustentou o secretário.
"A orientação de governo é que essas pessoas (suspeitos de cometerem crimes) sejam presas e entregues à Justiça", complementou. "Nossa polícia é legalista e uma das menos letais do Brasil".
Houve, entretanto, aumento no número de confrontos com a polícia. "Saímos de 20 para 45 confrontos (entre policiais e bandidos) por mês a partir de 2019", revelou o secretário.
Ele credita esse crescimento ao aumento do número de armas nas mãos de criminosos, o que se deve, também de acordo com Duboc, à política de flexibilização do acesso a armas de fogo por parte da população em geral.
"Essa política das armas se reflete na homilia do Padre Kelder. Ele fala que jovens têm acesso a armas e insinua que isso tem a ver com corrupção (na polícia). Mas, para nós, tem a ver com o maior acesso a armas de fogo. Em relação a corrupção, temos a corregedoria e a ouvidoria. Se alguém tem alguma denúncia a fazer, é importante que faça", sugeriu Duboc.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.