"Quando se confunde política e religião há problemas, como no MEC", diz padre Kelder
Igreja
"Quando se confunde política e religião há problemas, como no MEC", diz padre Kelder
Igreja Católica criou grupo de trabalho para discutir o pleito deste ano, mas sem indicar em quem fiéis devem votar
Publicado em 10 de Abril de 2022 às 08:01
Públicado em
10 abr 2022 às 08:01
Colunista
Letícia Gonçalves
lgoncalves@redegazeta.com.br
Padre Kelder Brandão durante celebraçãoCrédito: Divulgação
Dizem que política, futebol e religião são assuntos indiscutíveis. Mas, como o noticiário não nos permite ignorar, os três temas estão umbilicalmente ligados. A coluna não vai se arriscar a falar de futebol, mas é dos outros dois assuntos que vamos tratar aqui.
A Arquidiocese de Vitória iniciou um grupo de trabalho para discutir as eleições deste ano, para a eleição de presidente da República, governador, senador e deputados. A ideia não é indica aos fiéis em quem votar, apenas estabelecer algumas diretrizes e orientações, nada muito diferente do que ocorreu em eleições anteriores.
A diferença é que, agora, a Arquidiocese atua com mais autonomia, ligada a uma regional (uma divisão interna da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil) independente.
E começa a tratar de eleições em um período em que, como o escândalo da influência de pastores evangélicos no Ministério da Educação denota, a religião, ou os líderes religiosos, têm estado em evidência.
"Quando se confunde política e religião há problemas, como no MEC", diz o padre Kelder Brandão, que é vigário episcopal para ação social e política e ecumênica da Arquidiocese de Vitória.
"A relação religião e política é muito complexa quando as instituições não são capazes de estabelecer um limite crítico entre essas dimensões", complementou.
O padre está à frente do grupo de trabalho sobre as eleições, que iniciou as atividades há poucas semanas.
"A Igreja jamais vai dizer em quem as pessoas devem e podem votar. Trabalhamos com princípios da doutrina social da Igreja, para formar consciência e não direcionar o voto. Não queremos ter um estado católico, ou cristão", defendeu.
Ele celebra na Paróquia Santa Teresa de Calcutá, em Itararé. Durante uma missa, em meio à campanha eleitoral, afirmou que um dos candidatos "fez uma boa gestão aqui no município e que defende pautas que também são defendidas por nós, pela Igreja, como por exemplo os direitos humanos, o combate à pobreza e a valorização das minorias sociais através de políticas públicas".
Não citou o ex-prefeito da Capital João Coser (PT), que concorria contra Lorenzo Pazolini (Republicanos), mas a referência era ao petista. Já sobre "o outro candidato", citou que era “patrocinado por grupos fundamentalistas e por inimigos da Igreja”. Mais uma vez não citou nomes.
Pazolini venceu Coser.
Questionado pela coluna nesta semana, padre Kelder afirmou que em momento algum pediu voto para o petista ou quem quer que se seja.
"O posicionamento que eu tive no segundo turno foi o mesmo que eu tive no primeiro turno e que inclusive o Gandini (deputado estadual que também disputou a Prefeitura de Vitória em 2020) usou sem me pedir autorização na propaganda eleitoral e eu tive que pedir para retirar. Houve um equívoco de atrelar minha fala a um determinado candidato (Coser)", ressaltou.
"Foi uma fala que eu fiz, e continuo defendendo, que o Espírito Santo não pode ser governador pelo crime organizado e nem católicos podem votar em inimigos públicos da Igreja", reafirmou, sem citar quem seriam tais inimigos.
"Em 2020 a gente sobreviveu, embora tenham dito que o segundo turno foi entre Frei Agostinho e Padre Kelder", brincou. Na época, o frei Agostinho Morosini, da Paróquia Santa Rita de Cássia, na Praia do Canto, postou-se de forma contrária ao padre de Itararé e, em um vídeo, afirmou que "a Igreja Católica somente pede a seus padres que orientem os fiéis a votarem de forma consciente".
"Conseguimos amadurecer e atravessar essa fase", comentou Kelder Brandão agora, quase dois anos depois.
O padre afirmou ainda que não apresenta nem convida candidatos específicos para falar aos fiéis em celebrações. O que o grupo de trabalho pretende é realizar debates, com todos eles, em igualdade de condições.
"Nunca apresentar candidato como o seu candidato ou direcionando votos. Os padres são livres para apoiar os candidatos que devam apoiar, mas não em nome da Igreja", pontuou.
Mais recentemente, em fevereiro, o ex-juiz Sergio Moro (então filiado ao Podemos) visitou o Convento da Penha e apareceu em fotos ao lado de um sorridente frei Djalmo Fuck, guardião do templo. As imagens foram publicadas na página oficial do convento no Instagram, o que causou indignação, demonstrada nos comentários do post.
As críticas se deram devido ao pretenso apoio do religioso a um dos pré-candidatos à Presidência da República por meio de uma página da Igreja. A publicação foi apagada 12 horas depois.
"Foi uma manifestação pessoal (do frei), não um ato institucional. Como foi o Moro poderia ter sido o Lula, o Ciro, qualquer um. O problema é que a gente está vivendo essa animosidade. Qualquer manifestação de imagem cria uma comoção. Da parte da Igreja, não houve quebra de regra. O frei teria que receber qualquer político, como eu teria que receber aqui. Eu estaria infringindo regras se eu expulsasse ou condenasse", comentou.
Por falar em visita de políticos, em ano eleitoral eles aparecem com facilidade, inclusive nos 11 bairros abarcados pela Paróquia de Itararé. "Depois desaparecem", lembra o padre Kelder.
"Na função de padre e cidadão, tenho compromisso com as pautas sociais. Apoio candidatos e candidatas que tenham compromisso com a vida e a dignidade do povo", elencou. Mas não disse quem pretende apoiar.
Graduada em Jornalismo pela Universidade Federal do Espirito Santo, ingressou na Rede Gazeta em 2006, como estagiaria no Gazeta Online/ CBN Vitoria. Em 2008, passou a atuar como reporter da radio. Em 2012, migrou para a editoria de Politica de A Gazeta, tambem como reporter. Exerceu a funcao de editora-adjunta de 2020 ate 2021, quando assumiu a coluna Leticia Goncalves.